sábado, 14 de junho de 2014

Novo "Blogger" - Rodrigo Falcão Nogueira - Análise NZ v Inglaterra (1.º Jogo)

É um enorme prazer contar com a contribuição do Rodrigo, com quem joguei no CDUL. Porque ele jamais o faria, cabe-me sublinhar a dimensão absolutamente extraordinário do Rodrigo enquanto jogador. Não fosse uma lesão, e teria sido, seguramente, um dos mais brilhantes centros nacionais. Chegou cedo aos Séniores do CDUL e rapidamente mostrou que era um jogador de eleição.

Mais tarde, quando Pedro Mello e Castro era treinador dos séniores (e eu seu adjunto), começou a colaborar connosco fazendo análises dos nossos jogos e dos adversários, que só pecavam por serem esporádicas. Eram sucintas, esclarecidas, iluminadas do ponto de vista táctico. O Rodrigo tem um excelente cérebro para o rugby e por isso é uma honra que faça doravante parte do Mister do Rugby. Enquanto não tem acesso (imposições de umas férias merecidas), publico eu a sua primeira contribuição. Peço desculpa por ser já depois do segundo jogo entre NZ e Inglaterra ter sido disputado, mas também estou por fora, com acesso limitado à internet. 

Nova Zelândia – Inglaterra
Eden Park, 7 de junho de 2014

Algumas notas

Não havia dúvidas, restava apenas saber por quantos iria ganhar a NZ.

A NZ apesar de se ter concentrado uma semana antes do jogo tinha apenas como grande ausência Kieron Read (se excluirmos Savea “substituído” na equipa habitual por Cory Jane e Carter que só agora está a voltar dos seus 6 meses de leave).

No outro lado, a Inglaterra preparava o jogo há mais tempo mas faltava-lhe quase toda uma nova equipa, a que tinha jogado a final do Aviva Premiership no sábado anterior (Tom Wood, Owen Farrell, Luther Burrell, Courtney Lawes, Dylan Hartley, Chris Ashton, Billy Vunipola...) à qual acrescia Danny Care, lesionado. Acrescendo a estas ausências, os jogadores ingleses tinham acabado de fechar uma longa e desgastante época de clubes e viajaram meio mundo, adicionando 11 horas aos seus relógios, para três exigentes jogos.

O site planetrugby.com previa uma vitória da NZ por 18 pontos. Tudo apontava nesse sentido.

Nova Zelândia

A NZ implementou um jogo (insistente) ao pé que não lhe é característico (nem dos seus franchises do Super Rugby), mas que tem vindo a tornar-se uma tendência desde a última ronda de jogos internacionais no final de 2013.

Jogo tático de conquista territorial com pontapés para as costas dos pontas ingleses tanto diretamente das fases estáticas ou dinâmicas por Aaron Smith como em jogo corrido essencialmente por Cruden (excelente também nos pontapés aos postes).

Também de jogo corrido e já bem dentro do meio campo defensivo inglês foram tentados pequenos chutos entre linhas para pressionar ainda mais o 3 de trás inglês, mas estes nem sempre com a eficácia desejada (Nonu com um chuto direto para fora, entre vários outros chutos por Aaron Cruden ou Israel Dagg nem sempre a apanharem desprevenidos os bem posicionados e atentos Mike Brown e Marland Yarde, a mesma consistência não se viu no lado de Jonny May).

Mais eficaz foi a utilização de up and unders que com uma pressão asfixiante e eficaz permitiu não raras vezes recuperar a posse de bola ou forçar o erro inglês.

No jogo à mão, a NZ utilizou várias jogadas diretas para o 3.º canal de fases estáticas, tentando tirar partido do facto do abertura e centros ingleses se encontrarem muito juntos e do ponta aberto se encontrar ligeiramente recuado. Estas jogadas poderiam ter sido outro desfecho (como se viu pela facilidade com que a NZ passou a linha da vantagem por fora aos 13m de jogo), não fossem os invulgares erros (básicos) de handling por jogadores experientes neozelandeses (ex. avants de Dagg aos 50m e Barret aos 60m) ou a incapacidade dos decoys NZ em prender no interior os defesas ingleses (porque não terem tentado a perfuração interior à medida que a preocupação inglesa com o jogo no 3.º canal NZ crescia?).   

Em termos defensivos, a NZ teve muitas dificuldades na primeira parte em defender o jogo físico inglês à volta do ruck e na zona do 1.º para o 2.º canal, onde a Inglaterra gosta de iniciar a sua dinâmica ofensiva. A defesa da NZ subiu de qualidade e tornou-se mais agressiva na segunda parte, com placagens ofensivas muitas vezes de 2x1, permitindo não só ganhar terreno a defender, mas atrasar e desorganizar o ataque inglês.

De realçar as dificuldades da NZ em estabilizar as suas mêllèes com muito mérito do pack inglês confirmando uma vez mais a tendência recente nos confrontos entre estas duas equipas.

Melhor nas touches, mas ainda assim a sofrer uma enorme pressão (uma vez mais com grande mérito) inglesa.

Registo de 1 touche e 1 mêllèe de introdução própria perdidas.

O pior terá mesmo sido a quantidade de erros individuais que permitiram inúmeras recuperações da posse da bola pelos ingleses.

Inglaterra

Uma surpresa a forma coesa e física como entraram dentro de campo apanhando a NZ completamente desprevenida, basta recordar a perfuração pelo meio do ruck do capitão Chris Robshaw (excelente leitura) ainda nem havia um minuto de jogo corrido.

Com um modelo de jogo mais aberto nesta era e com o cunho de Stuart Lancaster e da sua equipa técnica, a Inglaterra foi, porém, especialmente eficaz enquanto fez/aguentou o seu jogo físico dinâmico no 2.º canal, lançando os seus avançados (preferencialmente os mais pesados – 1.ª e 2.ª linhas), centros e Marland Yarde. Fixações iniciais suplementadas com rucks rápidos a garantir a continuidade de jogo e avanço no terreno.

No ataque no terceiro canal estruturado em 2 ou 3 planos/linhas de ataque, foram sempre previsíveis, mesmo com espaço, permitindo uma defesa fácil das linhas NZ. Teria sido, porventura, mais eficaz manter a bola viva no seu canal de conforto...

O ataque foi complementado com um jogo ao pé quase sem falhas de Freddie Burns (foram os chutos dele que muitas vezes puseram o ponto final, com vantagem inglesa, no constante ping-pong de pontapés entre as duas equipas), não só em jogo aberto a descobrir o espaço nas costas das unidades mais recuadas da NZ, mas também nos pontapés aos postes.

Os up and unders foram a tática preferida nos contra-ataques ingleses iniciados – na maioria das vezes - com longos e altos pontapés de Mike Brown. Pontapés objeto de uma pressão asfixiante de Marland Yarde que conseguiu muitas vezes sozinho conter os subsequentes contra-ataques da NZ.

A defesa foi dura e com uma pressão rápida e organizada. A utilização da placagem de 2x1 com eficácia e os contra-rucks (em especial Robshaw) foram nucleares na estratégia para parar os All Blacks, quebrando o seu ritmo de jogo ofensivo e permitindo vários turnovers (foram 7 no total vs 6 da NZ).

É também de realçar que a Inglaterra falhou menos placagens (22 vs 13), não tendo tido também necessidade de fazer tantas placagens (105 vs 82), o que não deixa de ser surpreendente e revelador do quanto o jogo ofensivo neozelandês se alterou.

Nas fases estáticas a equipa inglesa foi dominante e extremamente consistente com uma eficácia de 100% na mêllès e touches de introdução própria.

À semelhança da NZ, a Inglaterra terá cometido também um número exorbitante de erros individuais (infelizmente sem dados estatísticos que possibilitem a comparação).

A derrota inglesa

Num jogo sem qualidade em que só o resultado final foi previsível, valeu a emoção do primeiro ao último minuto.

Pela derrota, muito pode a equipa inglesa queixar-se de si própria pelo excesso de erros individuais, por ter feito faltas no seu meio campo aproveitadas pela NZ e pela incapacidade de manter o ritmo e fisicalidade do seu jogo ao longo dos 80 minutos. Em relação a este último ponto a equipa NZ pareceu menos cansada e com melhores opções a sair do banco (em especial Victor Vito e Barret) o que lhe permitiu intensificar o jogo nos últimos minutos e conseguir alcançar o ensaio da vitória.

Os momentos do jogo

       i. O ensaio não assinalado (e bem) a Freddie Burns por avant de Mike Brown (10m).

      ii. O avant de Ben Youngs que permitiu a arrancada de Retallik e terminou com o cartão amarelo a Marland Yarde (69m).

    iii. A decisão de Cruden em jogar à mão uma penalidade frontal quando o resultado estava em 15-15 que quase deu ensaio e deu origem à mêllèe da qual nasceu o ensaio da NZ (75m).

   iv. O ensaio, a qualidade técnica e velocidade de Ben Smith, a leitura de jogo e experiência de Conrad Smith que antecipando espaço no lado fechado do campo discretamente movimenta-se do lado aberto e se posiciona no exterior do outro Smith recebendo de bandeja o passe para um mergulho que valeu a vitória (76m).

Jogadores

Pela positiva...

·   Jerome Kaino – não fazendo esquecer Read, foi fundamental para combater o jogo físico inglês (juntamente com McCaw).
·    Aaron Smith – foi dos poucos que tentou dinamizar o jogo NZ à mão ou fazendo um bom uso do pé.
·  Chris Robshaw – omnipresente com contribuições decisivas no jogo defensivo. (placagem e breakdown) e como “arma de arremesso” no ataque contra a defensiva neozelandesa.
·    Freddie Burns – pela forma como guiou a equipa e controlou o jogo ao pé.

...e pela negativa

·    Israel Dagg – pela falta de concentração, displicência e erros de principiante.
·   David Wilson –pela incapacidade de integrar o jogo ofensivo inglês no espaço com dois avants evitáveis, em tudo o resto esteve bem.

O 2.º test match

Da NZ, sem Read e Dagg, mas com Julian Savea na ponta e Ben Smith a 15, espera-se que mantenha o estilo de jogo, mas com mais posse de bola (mais risco no jogo à mão) e agressividade durante todo o jogo. O jogo ao pé terá como alvo principal Manu Tuilagi. Com mais tempo de treino com toda a equipa, sem o elemento surpresa do primeiro jogo e orgulho ferido – apesar da vitória – antecipo uma subida grande do nível de intensidade e qualidade de jogo da NZ, certamente um jogo com menos erros e previsivelmente com a criação de mais oportunidades de ensaio.

Com a chegada da cavalaria, a equipa técnica inglesa fez 5 alterações (Tom Wood, Danny Care, Owen Farrell, Billy Twelvetrees e Luther Burrell) que irão conceder mais qualidade, dinâmica e poder de choque nos ¾. Ganha ainda um banco forte capaz de entrar e manter o nível e ritmo de jogo (entre outros, Courtney Lawes, Billy Vunipola, Ben Young, Freddie Burns e Chris Ashton). A mudança de abertura não deverá mudar substancialmente a forma de jogar inglesa nem a qualidade e eficácia do jogo ao pé. Já a inclusão de Manu Tuilagi a ponta e Twelvetrees e Burrell no meio, antecipa uma Inglaterra ainda mais física e perfurante, apostando forte na continuidade de jogo (excelente Twelvetrees no offload) utilizando o 3.º canal menos frequentemente. A inclusão de Danny Care confere criatividade, espontaneidade e mais jogo à mão da equipa inglesa, embora os pontapés tácticos com forte pressão devam ser ainda a principal arma inglesa atacante inglesa dentro do seu meio campo defensivo.

Fonte dos dados estatísticos NZ Herald

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Heineken Cup - o breakdown

Brad Barritt indicou o "breakdown" (jogo no chão) como a chave do sucesso do Toulon. A este reparo não será alheio o facto dos Saracens terem dominado o contacto (e logo o ruck) internamente, na Aviva Premiership. Contudo, a Europa tem sido um jogo diferente: se contra o Clermont a percentagem de rucks foi (como é quase sempre) acima dos 90% e a velocidade de disponibilização de bola melhor caracterizada como atómica, a que se juntaram 14 (!) "turnovers" (recuperações de bola), contra o Ulster, nos quartos de final, os Saracens perderam a batalha do chão. A terceira linha não registou, na Irlanda, qualquer recuperação de bola (apenas duas no total, a cargo da primeira linha, contra 5 do Ulster), e tiveram uma percentagem de rucks ganhos ligeiramente inferior ao opositor. 

Na final, lidaram com uma defesa do Toulon que tinha o propósito claro de:
  • derrubar rapidamente o portador da bola, preferindo placagens baixas (cujo efeito negativo de perda de terreno era compensado por uma velocidade elevada de subida da linha defensiva) = bola imediatamente disponível para disputa;
  • "assist" (segundo placador) muito próximo do placador, no sentido de chegar mais cedo e obter vantagem numérica na disputa da bola.
Os Saracens só poderiam ter saído do colete de forças se conseguissem um "clean out" (limpeza de ruck) mais eficaz e imediato, algo que Vunipola mas sobretudo Burger e Brown nunca conseguiram alcançar. Foram claramente derrotados neste ponto. 
A estratégia era arriscada, porque implicava comprometer mais homens na defesa (que poderiam fazer falta nos canais exteriores, caso a bola fosse disponibilizada rapidamente). Juan Smith e Steffon Armitage foram monstros e materializaram o plano de Laporte. E toda a equipa extremamente rigorosa, porque foi raro verem-se homens desperdiçados no contacto, antes deixando a disputa a 2 ou 3 jogadores, com os restantes a integrarem a linha defensiva. Impressionante! Os exemplos seguintes procuraram demonstrar que os de Toulon foram mais inteligentes na decisão e rigorosos na execução das técnicas de contacto, não necessariamente mais poderosos fisicamente. 
Exemplo 1________________________________________________________________

Juan Smith placa Schalk Britz. Toulon tem Basteraud (13) como assist, Giteau (12) e Mitchell (14) próximos. Os Saracens têm Borthwick (4) como primeiro apoio (na função de clean out) e Farrell (10), Brown (6) e Burger (7) próximos. 


Basteraud, sem falta (está em posição regular, disputa a posse de bola de pé, e não estava em contacto com Britz na placagem e queda deste) consegue trancar a saída da bola. Borthwick é ineficaz na limpeza (veja-se como caí para lá da linha da bola, sem ter movido a ameaça à bola), Brown e Burger chegam tarde, e tentam limpeza por cima do corpo trancado de Basteraud (excelente técnica de "jackal", i.e. sobre a bola). 1 x 3 e Basteraud venceu o duelo. Excelente.
Exemplo 2________________________________________________________________


Hayman (3) placa B. Vunipola (8), que tem Brown (6) a fazer "martelo" e Matt Stevens (3) próximo. Juan Smith (6) está bem próximo e Chiocci, mais longe, prepara-se para ser o "assist" (segunda placador). 




Vunipola progride mas, placado baixo, cai. Hayman está fora do processo porque não consegue levantar-se. Chiocci, fabuloso, aproveita o facto de Brown não poder cair com o jogador placado (seria falta - o famoso "bridging") e ganha o espaço critico por cima da bola, através da sua posição baixa mas segura. Brown, muito próximo, já só consegue tentar o "clean out" através da pega de crocodilo, i.e. por cima e virando o adversário, mas que exige domínio físico. Brown é pelo menos 20 Kgs mais leve que Chiocci e não consegue limpar o pilar francês. Smith, inteligentíssimo, compreende que a sua acção não será necessária (ou a bola é recuperada ou então está perdida e mais vale defender), optando por integrar a linha defensiva. Rigor, critério, zero desperdício. Com gente inteligente é mais fácil. Pela negativa, Matt Stevens que não compreendeu que teria de atacar a situação pelo eixo, e optou por manter-se bem próximo e lateral, ou seja, em situação de inutilidade absoluta.


 
Juntam-se à festa M. Vunipola (1), Borthwick (4), Britz (2) e Wigglesworth (9) mas a falta (não libertou a bola) já havia sido cometida por B. Vunipola (8). Com 2 homens, o Toulon recupera a bola protegida por 3 homens dos Saracens. 

Neste particular, sublinhado ao brilhantismo da decisão dos franceses, que sempre que B. Vunipola era o portador, preferiam placar baixo, mesmo que isso implicasse ligeira perda de terreno. A decisão, acertada, justifica-se em duas penadas: se placassem alto, B. Vunipola continuaria a progredir e quando finalmente caísse no chão, teria o apoio suficiente para assegurar a posse de bola. B. Vunipola nunca conseguiu adaptar-se, e não fez o que já antes fizera pela Selecção: marcado, disponibilizar a bola no espaço para colega melhor colocado. 
Exemplo 3________________________________________________________________
 

Uma imagem vale mil palavras... 6 Saracens contra 2 do Toulon. Falta do jogador inglês, por não largar a bola.

Exemplo 4________________________________________________________________



Lobbe (7) placa, S. Armitage é o "assist". Borthwick (4) parece um pouco isolado, embora surja já Britz (2) para o "clean out". 



S. Armitage (aparentemente em falta, porque cai com o Borthwick; só pode disputar a bola depois de largar o placado) adopta desde logo posição de "jackal" perfeita, com as mãos sobre a bola e de pé. Britz e Ashton (14) vão chegar atrasados.



Falta! Borthwick não largou a bola. Segredo desta recuperação de bola: a velocidade com que Borthwick foi placado e colocado no chão - a bola passa à condição de disputável - e retirando tempo ao apoio atacante.

Exemplo 5________________________________________________________________







Nesta sequência, que envolve os inevitáveis S. Armitage (placador) e J. Smith ("assist"), o árbitro marcou penalidade de Strettle, que não largou a bola. Contudo, é evidente que J. Smith foi quem primeiro prevaricou, ao abraçar firmemente Strettle na sua viagem até ao chão. O placador (primeiro ou "assist") tem de largar o placado, e só depois pode disputar a bola. 

E soluções?
Isto de comentar no cadeirão é um pouco como os famosos prognósticos no futebol: só depois do jogo. E no entanto, os Saracens sabiam que iam defrontar uma equipa que, em 8 jogos (6 jornadas + QF + MF) tinha registado 56 recuperações de bola (média de 7 por jogo) e um jogador em particular, Steffon Armitage, com 13 "turnovers" em seu nome. Ou seja, uma equipa proficiente na colisão defensiva, placagem e técnica de "ruck". A título de curiosidade, a única equipa que este ano, na Heineken Cup, não concedeu qualquer "turnover" foi o Munster, nos QF. O que acaba por não surpreender, se nos recordarmos da lição que o pack Irlandês deu ao pack Galês na primeira jornada do 6 Nações deste ano. Muito semelhante.
Com a devida vénia ao João Pedro Varela, cujo segundo périplo pela NZ resultou num avolumar do seu já impressionante conhecimento oval, e que teve a generosidade de partilhar, entre outras, esta ideia, os Saracens poderiam ter insistido no que lá por baixo se vai fazendo e a que poderemos chamar de "early clean out", i.e. limpar o homem (o "assist") antes do "ruck" formado. A legalidade deste expediente será seguramente sindicada no futuro. Mas por ora, poderia ter ajuda a anular a omnipresença da terceira linha francesa no ponto de queda.

 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Final da Heineken Cup - algumas notas

Houve quem se considerasse defraudado com a final, em virtude da falta de espetacularidade do jogo. No entanto, o jogo foi incrível, porque o nível de intensidade foi absolutamente estrondoso, e o aproveitamento clínico das - poucas - oportunidades pelo Toulon absolutamente magistral. 

quinta-feira, 13 de março de 2014

segunda-feira, 3 de março de 2014

Dissecar o Inglaterra v Irlanda

Não consegui ver os jogos durante o fim-de-semana, e acabei por vê-los em diferido. O primeiro que vi foi o Inglaterra - Irlanda. 

Os de Lancaster estudaram muitíssimo bem as lições que havia a retirar do "banho" táctico dos Irlandeses aos Galeses, e este cuidado na análise - mais do que expectável, exigível a este nível - foi evidente em dois aspectos:

Defesa de "Maul" - uma das armas introduzidas por Plumtree, Neozelandês treinador de avançados Irlandeses, que havia rendido até ao momento dois ensaios e incontáveis metros ganhos. A verdade é que os Ingleses defenderam eficazmente o "maul" Irlandês, com duas excepções; a primeira no início da segunda parte, em que cederam praticamente 15 metros em "maul" formado após "touche", a segunda no final do jogo, quando após uma "melée" e uma fase jogada para o lado aberto, Best recebe uma bola e opta por formar "maul", defendido (na minha opinião) de forma ilegal por David Atwood. Em tudo o mais, os Irlandeses tiveram de escolher outras formas de avançar. 

Três de Trás (quase) perfeito na basculação - Johny Sexton e Conor Murray bem tentaram, mas com excepção de uma inevitável subida de May para desfazer a superioridade Irlandesa, não houve um único pontapé que encontrasse as costas do 3 de trás Inglês. Mike Brown, em particular, foi exímio na forma como ocupou as costas do ponta que era obrigado a subir (não repetiu o erro cometido em Paris…) e apenas May me parece algo lento na cobertura da diagonal interior, quando Brown é obrigado a aproximar-se das costas de Nowell. O facto da Irlanda ter chutado apenas 28% da posse de bola indica que cedo perceberam que o campo estava bem ocupado.

Porque razão Sexton e a Irlanda não conseguiram impor o jogo que haviam feito contra Gales? As estatísticas entre os dois jogos são até semelhantes, na medida em que os Irlandeses ganharam todas as "touches" e "melees", registaram poucas quebras de linha, poucas penalidades, poucos "offloads", erros entre os 30 e 40.

A diferença reside, essencial e decisivamente, em três factores de análise: 

- placagem menos eficaz (94%  e 9 falhadas contra Gales, 84% e 23 falhadas com a Inglaterra), que permitiu uma quebra de linha de Brown na primeira parte (falha de Best) e o ensaio de Care na segunda (péssima defesa táctica de D'Arcy e Murray);

- má retenção da posse de bola no contacto, já que perderam 11 vezes a bola contra os Ingleses, permitindo apenas 3 "magras" recuperações aos Galeses;

- incapacidade para transformar em pontos o domínio ou a oportunidade, algo em que haviam sido exímios em Novembro ante os All Blacks, e antes, neste 6 Nações. 

Na batalha entre os "Packs", os Irlandeses foram muito melhores na "melee", sem do facto retirar grande vantagem pontual. Na "touche" os dois grupos de avançados foram perfeitos. Em termos de jogo, ligeira vantagem para os Ingleses, sobretudo ao nível da defesa, já que Vunipola (e depois Morgan), Lawes, Wood e companhia nunca conseguiram participar activamente na movimentação dinâmica atacante, i.e., não asseguraram continuidade nas quebras de linha, não ofereceram alternativas em segunda linha atacante, etc, etc. 

Surpresas? 

- a disponibilidade Irlandesa para alargar o jogo desde a primeira ou segunda fase, o que sucedeu seguramente por indicação de Schmidt, que pretendia não só surpreender uma Inglaterra à espera do jogo ao pé, mas também testar a inexperiência de Burrell, primeiro centro no Northampton, no canal defensivo do 13 - o mais difícil. Desta forma, procurava também Schmidt adiantar os pontas, procurando mais espaço para o pé de Sexton. Algo que nunca se materializou. No entanto, e com excepção dos primeiros 20 minutos, em que a Inglaterra podia ter marcado um ensaio por May, foram os Irlandeses quem mais progrediu, quem mais teve a posse de bola, quem mais jogou no campo adversário, e quem pareceu sempre mais próximo de marcar pontos. Fantástica defesa Inglesa (como exemplo, período entre os 5 e 16 minutos de jogo… inacreditável), poucas penalidades concedidas no meio campo defensivo (que limitou Sexton a um pontapé de penalidade tentado… e convertido);

- a incapacidade Inglesa em jogar no segundo/terceiro plano, insistindo na organização numa única linha, e jogando quase exclusivamente no primeiro plano, bastando-se com as perfurações próximas do ponto de quebra/agrupamento. No final do jogo, optaram (sobretudo a partir de "touche") pela exploração dos espaços exteriores, mas a organização já não ajudava. Foi surpresa, porque a Inglaterra tinha vindo, desde Novembro, a optar por um jogo multidimensional e variado, pecando apenas na execução e decisão (a chamada leitura de jogo).

Desilusão

Se há algo que os jogadores do hemisfério sul fazem bem, mesmo os Sul Africanos mas sobretudo os All Blacks e os Wallabies, é identificar espaço, correr a direito, fixar defesas e libertar atacantes. Sobretudo no contra-ataque. Foi penoso ver Sexton assassinar duas possibilidades de ouro para ensaio, ou pelo menos avanço territorial significativo, a partir de bola recuperada, com defesa concentrada, gente disponível ao largo. A mais flagrante foi ao minuto 60 de jogo. 


Da mesma forma, custa ver um putativo candidato ao Mundial de 2015 deitar ao lixo ocasião soberana para 5 pontos, que Mike Brown preferiu diluir num inacreditável "pick&go" contra 2/3 da equipa Irlandesa, quando bastava escolher um dos lados para aproveitar a vantagem númerica. São estas miudezas e delicadezas que ainda vão separando os candidatos dos demais. 



O Ensaio Irlandês

Num jogo marcado pelo equilíbrio e pela batalha no chão, era previsível que os ensaios nascessem de erros adversários. 

O primeiro ensaio, o Irlandês, nasce de um equívoco. Num "ruck" formado em cima dos 22m defensivos Ingleses, Launchbury protege o eixo, Hartley forma no lugar de primeiro defensor e Marler de segundo defensor. Existem alguns protocolos que governam a defesa em torno do "ruck", sendo que os mais comuns ordenam que o primeiro e segundo não defendam homem mas antes o espaço, deixando que o primeiro receptor seja defendido pelo terceiro defensor; ou alternativamente que o primeiro receptor atacante seja defendido pelo segundo defensor. O que não se costuma ver é sistemas defensivos que deixem que o primeiro defensor seja atraído para o primeiro receptor atacante, precisamente para evitar a abertura de espaços de penetração interior (que George Gregan explorava magistralmente com pequenos passes interiores, que o Direito de Hourcade explorava com um cruzamento e pequeno passe interior para ponta do lado fechado, etc. etc.). 




Mas foi isso que sucedeu: entre Hartley e Marler existe um espaço demasiado grande; Jamie Heaslip recebe a bola e aparentemente não tem nada de evidente para fazer, optando por contemporizar. Marler não o ataca e Heaslip tem demasiado tempo para manobrar. Acaba por atrair a placagem de Hartley, aparecendo para o passe interior, excelente, Rob Kearney, vindo do lado fechado. O'Connell, experiente, parece fazer uma pequena obstrução sobre Launchbury, que da posição de eixo também não consegue defender a linha interior de Kearney. Mas o erro já estava feito, tendo sido bem aproveitado pela Irlanda.

O Ensaio Inglês

O exemplo acabado de como a supremacia nas fases estáticas não pode ser um fim em si mesmo, mas antes uma forma de exercício de domínio que tem de resultar em pressão territorial e de posse, que por sua vez tem de redundar em pontos. 

A "melee" Irlandesa coloca muita pressão na formação ordenada Inglesa e força um passe desastroso de Morgan. A bola acaba por ser recuperada por Nowell, uns 10 metros atrás do ponto da "melee".




Mas Connor Murray falha a placagem e Nowell consegue recuperar algum terreno. Henry e sobretudo O'Mahony, os asas Irlandeses, estavam atrasados e não permitem capitalizar sobre o erro Inglês.



Forma-se um "ruck". A Inglaterra tem 7 atacantes do lado aberto, sendo que 5 concentram-se em duas linhas, num espaço de 5 metros de largura no máximo. Os Irlandeses têm 6 defesas, sendo que é Best (o segundo), quem inicia a linha de subida. Em situação de ligeira inferioridade numérica (5 x 7), aos Irlandeses é pedido que tomem uma de três decisões:

A - subida cautelosa, tendo em vista deslizar e obter igualdade numérica defensiva no canal exterior, ainda que cedendo terreno; ou

B - arriscar uma subida pressionante, tendo a certeza que os Ingleses não estão tão profundos nem tão organizados que possam libertar atacantes no canal exterior em posição de finalizar; ou

C - subir de forma mista, i.e. subir com os 2 ou 3 primeiros homens de forma pressionante, tentando uma placagem com bola e a consequente recuperação de terreno, deixando 2 homens mais profundos que, em caso de falha na pressão, deslizarão e tentaram "empurrar" o ataque para a zona lateral, esperando pelo apoio defensivo que igualará os números.

Em qualquer caso, o que não se aceita é a concessão de uma quebra de linha, que coloca o ataque a jogar entre linhas e dificulta a acção da segunda cortina defensiva. 



Com dois planos montados (Ingleses profundos) e superioridade numérica atacante, a jogar nos 40 metros atacantes (ou seja, com muito campo nas costas), não me parece que a hipótese B fosse aconselhável. E muito menos quando D'Arcy poderia facilmente ter visto que Murray estava atrasado, criando um "buraco". Por outro lado, ao subir "à queima", bastou ao seu adversário (Robshaw) explorar o espaço no ombro exterior, ainda para mais quando Murray estava tão longe. 






Com a posição corporal ganha, e apesar de placado, Robshaw faz o "offload" para Brown, que estava na segunda linha de ataque, nas suas costas (porque razão Murray formou tão longe de D'Arcy)?

E Brown quebra a linha defensiva, passando a jogar entre linhas. Rob Kearney fez um excelente trabalho ao tentar atrasar a decisão de Brown, esperando pela aproximação dos pontas e por uma segunda cortina que nunca apareceu. Brown foi exímio na forma como viu o apoio de Care e fixa Rob Kearney e Dave Kearney, libertando Care para o ensaio. 




Uma nota final para a ausência de Murray por detrás do ruck, o que privou a Irlanda de um elemento fundamental na segunda cortina defensiva. Seria a ele que caberia defender o espaço curto nas costas da linha defensiva. Na sua ausência, um dos terceiras linhas poderia ter assumido este papel...


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Linhas e Planos de Ataque - Decifrar a Tendência

Não consigo, nos últimos anos e entre as equipas de topo, encontrar um modelo de organização atacante que não incorpore, ainda que circunstancialmente, as denominadas "ondas" ou "linhas" de ataque, e uma pluralidade de planos. Os jogos teste de Novembro de 2013, e agora duas (prestes a serem três...) jornadas de 6 Nações, confirmaram uma tendência evidente, cuja autoria desconheço mas que se tornou relevante ainda nos tempos de "Super 12", e antes de todas, com as equipas Neozelandezas.

Foi ao reler Stuart Lancaster, e concretamente um documento de 2005 que pode ser consultado aqui, que tive a curiosidade de recuperar a consciência dos benefícios e propósitos destes dois recursos tácticos, procurando substanciar esta minha noção de acerto intuitivo que prevalece no olho de quem vê sem analisar.  

Na enumeração de alguns princípios que compõem a sua filosofia de jogo, Lancaster enumera um, em particular, que nos remete para o tema que nos detém:

Aim to play through the defensive line as well as round the outside.

Estamos no campo das evidências, mas nem tudo o que poderia ter sido dito por La Palice é para deitar ao lixo; são elas que nos devolvem a essência do jogo, evitando que nos percamos por entre os artíficios tácticos engendrados por jornadas consecutivas de "xadrês táctico". Com tanta onda, plano, dobra, cruzamento e salto, corremos o risco de perder de vista a simplicidade do jogo, que trata de andar para a frente e fazer toque de meta lá ao fundo. Mas a sofisticação e eficácia defensiva, que é ainda hoje a forma mais imediata de assegurar competitividade - recuso-me a aceitar o anátema que as defesas ganham o que seja - aguça o engenho de quem pensa o ataque. 

E se a organização em duas "linhas" ou "ondas" trata de organizar um núcleo de jogadores com o propósito de, num determinado momento atacante, quebrar/perfurar uma linha defensiva organizada, já a introdução de distintos planos atacantes introduz um modelo global para concentrar defesas em zonas centrais e, evitando o efeito estrangulador da grande velocidade de subida da linha defensiva, assegurar que existe um grupo de jogadores suficientemente profundo para atacar uma situação de vantagem, ou menos profundo mas no espaço certo para atacar a ausência de defesas na zona lateral. 

Ou seja, "ondas" para tratar de quebrar a linha defensiva (play through the defensive line); planos para atacar o espaço exterior disponível (round the outside).

TÁCTICA DAS DUAS ONDAS (OU A "SERRILHA")

 As Duas Ondas ou "Serrilha", por Dan Cottrell 

Lembro-me bem do dia em que, há uns anos atrás, comecei a reparar que os Crusaders organizavam o seu ataque em duas linhas distintas, duas ondas na designação saxónica, com os homens da segunda linha posicionados nos intervalos criados pelos homens da primeira. Recordou-me uma "serrilha", e foi assim que tentei debater o conceito com os restantes membros da equipa técnica que integrava na altura. 


Era uma forma de organização diferente do padrão que na altura começara a ser introduzido e aperfeiçoado entre nós, inspirado nas mini-jogadas ou mini-grupos, com manobradores, engodos, penetradores e apoios, sublimado pelo Direito de Hourcade e Frederico Sousa, seguramente uma das melhores equipas que vi jogar em Portugal, e protagonizado de forma absolutamente inédita pelo CDUP de "Iei", um dos treinadores que defrontei com maior orginalidade e competência táctica. 


 E a "serrilha", personificada genericamente pelas equipas do Super Rugby (Super 12 na altura), tinha tanto de fácil - uma ilusão - como de eficiente - um facto. Atacando a linha defensiva, os homens da primeira "onda" assumiam linhas de corrida acentuadas, que criavam abertura de espaços entre defesas, aproveitados pelos homens da segunda "onda", com linhas de corrida divergentes. E tudo aquilo se desenrolava num bailado fluído, mudo, indiferente ao ponto do campo ou jogada pedida, a partir de fases estáticas ou em "jogo corrido", com o resultado de inevitáveis quebras de linha e, não raras vezes, ensaios.

À partida, existe desde já um desiquilibrio na equação, e que não tem uma solução rápida ou fácil. Ao organizar-se em dois planos, o ataque coloca no mesmo espaço mais homens que a defesa, organizada em linha simples.


 E as possibilidades são infinitas.

PLANOS ATACANTES

Os planos atacantes distintos (tipicamente 3 em fases estáticas ou fases mais organizadas do jogo) surgiram como resposta ao aumento da velocidade da linha na subida/pressão defensiva. Organizados numa linha contínua, e com a introdução da defesa "rush"e muitas vezes de uma linha "em banana", tornou-se cada vez mais difícil de colocar a bola nos espaços exteriores para exploração do maior espaço entre defesas ou mesmo de vantagens númericas. Ou seja, a defesa passou a conseguir antecipar o ponto de encontro entre a linha atacante e a linha defensiva, passando a "matar" jogadas muito mais cedo.


Ao lançar um plano (unidade) com potenciais/efectivos atacantes para junto da linha de vantagem, os primeiros defensores ficam comprometidos, impedidos de deslizar. Ao colocar um elemento de ligação e um segundo plano (unidade) bem mais profundo, neutraliza-se a acção do(s) elemento(s) mais adiantado(s) da linha defensiva, mesmo "em banana", mantendo-se a capacidade de ataque do espaço criado.



A fórmula pode ser usada em jogadas de primeira fase.

Pode também ser usada em fases de jogo primárias, perante defesas organizadas, permitindo a colocação da bola nos canais exteriores, onde a possibilidade de sucesso no 1x1 é superior, por ali existir mais espaço entre defesas para ser explorado pelos homens mais rápidos da equipa. 

Finalmente, serve como maquete para organização em momentos de vantagem numérica relativa (um 5x3 por ex.), assegurando a manutenção do espaço exterior/vantagem, sobretudo em fases de maior pressão defensiva (22 metros atacantes, por exemplo, onde a defesa preocupa-se mais com a velocidade de subida que com a manutenção da estrutura defensiva).

A Inglaterra, particularmente, tem recorrido ao "template", apresentando um modelo em que se organiza em 2 ou 3 planos, e em que é comum a unidade estar organizada em duas linhas (imagens retiradas a excelente análise de Jeremy Guscott, na Sky Sports).






terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Cinco Previsões para o Inglaterra - Irlanda

Com a devida vénia ao David Andrade, Sofia Peres e Daniel Azevedo, deixo-vos a minha última crónica para o excelente P3, aproveitando para recomendar o que de muito bom se escreve por lá.