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domingo, 3 de maio de 2015

Bath - estrutura de ataque

O Bath de Mike Ford tem estruturas de ataque incríveis e são a equipa com a ideia de jogo mais interessante da Aviva Premiership.

Uma das mais eficazes e simples - não por acaso - é a utilização de 3 atacantes curtos, na zona do Guarda/Poste/3.º homem e comandante de subida da linha defensiva, alinhados como num "power" típico de Gales ou Austrália 2010, e com um penetrador/manobrador nas costas, que identifica o espaço criado e penetra.



Exemplo perfeito: minuto 1:16 do vídeo em baixo (repare-se na linha e tempo de Ollie Devoto, mas também no apoio perfeito do ponta fechado, Rokoduguni e da aproximação do centro Kyle Eastmond, convergindo no apoio para o ponto de penetração. Poesia em movimento).


Alternativamente, o penetrador (que jeito dá ter George Ford) pode transformar-se em distribuidor, e jogar no segundo plano, que deve estar alinhado com o tempo de recepção e passe do penetrador/distribuidor, certificando-se que não lateralizam linha de corrida, preservando a verticalidade necessária para manter a defesa concentrada ou atacar os espaços de uma defesa estendida.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

"Earning the right to go wide" - falência de modelos

Tive o distinto prazer de ser treinado no CDUL por João Paulo Bessa (cujo verbo pode ser consultado no seu XVcontraXV e no P3) e tenho o ainda maior prazer de ser seu amigo, e de com ele poder falar sobre rugby. O arquitecto ensinava com singular simplicidade o muito discutido, e em voga, conceito de ganhar o direito a alargar o perímetro de jogo (earning the right to go wide), recorrendo apenas aos seus braços.

A ideia é simples. A linha defensiva organizada ocupa o espaço disponível para atacar. 

Ao atacar a linha defensiva, e quebrar essa mesma linha, obrigamos a defesa a concentrar e contrair, libertando espaço exterior. Ou seja, ao vencermos a batalha física, obrigamos o adversário a chamar mais recursos (homens) para o ponto de quebra; homens que passarão a faltar nos corredores exteriores (ou interiores, se não houver reorganização defensiva). 



E se esta ideia é insofismável, reflectindo na perfeição o imperativo do domínio físico da colisão como pressuposto táctico para o sucesso, a interpretação que alguns dela fazem, ainda que circunstancialmente, pode ser redutora. Warren Gatland, um dos mais bem sucedidos treinadores da era moderna, que o diga. 

Gatland distinguiu-se em Waikato, de onde herdou a superioridade no confronto físico como elemento essencial da sua forma de jogar. Com quinze jogadores directos e prevalecentes na colisão, com capacidade para gerar bola rápida no "ruck", e com uma dinâmica de sucessão de "rucks" curtos (o chamado "around the corner"), Gatland juntou-lhe uma defesa pressionante dominante, cortesia de Shaun Edwards, e um jogo ao pé apostado em manter a bola dentro de campo, ciente que as leis de jogo na primeira década do Séc. XXI favoreciam a defesa e a recuperação de bola, no jogo no chão. Foi assim que dominou o campeonato Inglês nos anos 90, com os Wasps, que venceu 3 Seis Nações, incluindo 2 "Grand Slams", e a primeira vitória dos Lions, em 16 anos, frente à Australia em 2013. 

Mas as Seis Nações de 2014 demonstraram, com cristalina evidência, que o jogo evoluiu. Não foram os 3/4 galeses que perderam velocidade ou capacidade técnica. Deixaram foi de gozar do espaço e bola que antes lhes permitia o rugby mais vistoso a norte do equador. As duas equipas que melhor se adaptaram às novas regras e tendências tácticas, Irlanda e Inglaterra, foram as que mais intensamente brilharam na edição de 2014. E o Warrenball precisa de ir à revisão (na opinião ilustre de Clive Woodward, Brian Smith ou Gwyn Jones). Se Heineke Meyer conseguiu pôr os Springboks a jogar de forma um pouco distinta, Gatland consegui-lo-à seguramente. Material tem ele (veja-se a título de curiosidade o incrível ensaio de Cuthbert a semana passada).

A conclusão certa é que não existe, hoje, uma forma correcta de atacar. Tudo depende das questões colocadas pela defesa. 

Perante uma defesa rush out-in (como a dos Stormers ou o Wolfpack dos Saracens), podemos usar o passe ao pé para o espaço lateral vazio nas costas dos defensores exteriores pressionantes, ou organizar planos em profundidade para alargar o jogo desde as primeiras fases de jogo, aproveitando o espaço exterior disponível. 

Perante uma defesa deslizante in-out clássica, como a que os All Blacks adoptaram na primeira parte do jogo, importa atacar a linha da vantagem e "prender" a defesa, antes de alargar o perímetro.

Flexibilidade e adaptabilidade parece ser o nome fulcral no desenho de um modelo de jogo.

O modelo de jogo é a cartilha essencial que define os princípios de acção de uma equipa, introduzindo - em doses variadas, de acordo com a crença da equipa técnica - as estruturas que organizam as acções colectivas da equipa. Procura-se, desta forma, oferecer aos jogadores a segurança de um processo mental de decisão a que aderem todos os que compõe a equipa, com evidentes ganhos a nível de coordenação das contribuições individuais. A eficácia de uma equipa será sempre maior se, em determinada acção, os diversos jogadores envolvidos decidirem por referência a regras comuns, que todos compreendem e aceitam: cada um cumpre o seu papel, seguro que os papéis complementares, desempenhados pelos companheiros, serão também cumpridos e devidamente interligados ao seu. 

O modelo de jogo inclui, necessariamente, subtilezas e possibilidades, que pretendem reflectir as valências e defeitos do adversário, a especificidade das condições climatéricas, ou uma ideia concreta sobre a melhor forma de encarar um jogo específico, ou uma sua respectiva parte: são os planos de jogo. E assim conseguimos a tal flexibilidade.

Ainda recentemente Justin Marshall falava sobre a necessidade de ter um plano de jogo que sirva as características dos jogadores que o vão interpretar. Algo que Eddie Jones conseguiu implementar no Japão com sucesso assinalável, e que os Crusaders têm feito com sucesso inigualável nos últimos quase 10 anos. Contudo, Marshall, um histórico de Canterbury, considera que a adesão demasiado fiel às estruturas pensadas pelos treinadores de Christchurch retirou espontaneidade e capacidade de improviso aos jogadores. Por outro lado, Marshall também opina que o actual modelo não serve os interpretes; centrando a análise na estrutura vertical a partir de fases de jogo estáticas ou organizadas, que assenta em penetrações na primeira linha e lateralização para ataque de espaços exteriores criados, Marshall nota que sem Sonny Bill Williams e Robbie Fruean, Ryan Crotty não consegue jogar dentro da defesa com a mesma eficácia, permitindo que a defesa deslize anulando a lateralização criada na segunda linha.

Os Crusaders parecem ter ajustado o seu plano, a que não terá sido alheio o regresso de McCaw e Read, antes da paragem de Junho. Os resultados estão a surgir no momento certo.



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Linhas e Planos de Ataque - Decifrar a Tendência

Não consigo, nos últimos anos e entre as equipas de topo, encontrar um modelo de organização atacante que não incorpore, ainda que circunstancialmente, as denominadas "ondas" ou "linhas" de ataque, e uma pluralidade de planos. Os jogos teste de Novembro de 2013, e agora duas (prestes a serem três...) jornadas de 6 Nações, confirmaram uma tendência evidente, cuja autoria desconheço mas que se tornou relevante ainda nos tempos de "Super 12", e antes de todas, com as equipas Neozelandezas.

Foi ao reler Stuart Lancaster, e concretamente um documento de 2005 que pode ser consultado aqui, que tive a curiosidade de recuperar a consciência dos benefícios e propósitos destes dois recursos tácticos, procurando substanciar esta minha noção de acerto intuitivo que prevalece no olho de quem vê sem analisar.  

Na enumeração de alguns princípios que compõem a sua filosofia de jogo, Lancaster enumera um, em particular, que nos remete para o tema que nos detém:

Aim to play through the defensive line as well as round the outside.

Estamos no campo das evidências, mas nem tudo o que poderia ter sido dito por La Palice é para deitar ao lixo; são elas que nos devolvem a essência do jogo, evitando que nos percamos por entre os artíficios tácticos engendrados por jornadas consecutivas de "xadrês táctico". Com tanta onda, plano, dobra, cruzamento e salto, corremos o risco de perder de vista a simplicidade do jogo, que trata de andar para a frente e fazer toque de meta lá ao fundo. Mas a sofisticação e eficácia defensiva, que é ainda hoje a forma mais imediata de assegurar competitividade - recuso-me a aceitar o anátema que as defesas ganham o que seja - aguça o engenho de quem pensa o ataque. 

E se a organização em duas "linhas" ou "ondas" trata de organizar um núcleo de jogadores com o propósito de, num determinado momento atacante, quebrar/perfurar uma linha defensiva organizada, já a introdução de distintos planos atacantes introduz um modelo global para concentrar defesas em zonas centrais e, evitando o efeito estrangulador da grande velocidade de subida da linha defensiva, assegurar que existe um grupo de jogadores suficientemente profundo para atacar uma situação de vantagem, ou menos profundo mas no espaço certo para atacar a ausência de defesas na zona lateral. 

Ou seja, "ondas" para tratar de quebrar a linha defensiva (play through the defensive line); planos para atacar o espaço exterior disponível (round the outside).

TÁCTICA DAS DUAS ONDAS (OU A "SERRILHA")

 As Duas Ondas ou "Serrilha", por Dan Cottrell 

Lembro-me bem do dia em que, há uns anos atrás, comecei a reparar que os Crusaders organizavam o seu ataque em duas linhas distintas, duas ondas na designação saxónica, com os homens da segunda linha posicionados nos intervalos criados pelos homens da primeira. Recordou-me uma "serrilha", e foi assim que tentei debater o conceito com os restantes membros da equipa técnica que integrava na altura. 


Era uma forma de organização diferente do padrão que na altura começara a ser introduzido e aperfeiçoado entre nós, inspirado nas mini-jogadas ou mini-grupos, com manobradores, engodos, penetradores e apoios, sublimado pelo Direito de Hourcade e Frederico Sousa, seguramente uma das melhores equipas que vi jogar em Portugal, e protagonizado de forma absolutamente inédita pelo CDUP de "Iei", um dos treinadores que defrontei com maior orginalidade e competência táctica. 


 E a "serrilha", personificada genericamente pelas equipas do Super Rugby (Super 12 na altura), tinha tanto de fácil - uma ilusão - como de eficiente - um facto. Atacando a linha defensiva, os homens da primeira "onda" assumiam linhas de corrida acentuadas, que criavam abertura de espaços entre defesas, aproveitados pelos homens da segunda "onda", com linhas de corrida divergentes. E tudo aquilo se desenrolava num bailado fluído, mudo, indiferente ao ponto do campo ou jogada pedida, a partir de fases estáticas ou em "jogo corrido", com o resultado de inevitáveis quebras de linha e, não raras vezes, ensaios.

À partida, existe desde já um desiquilibrio na equação, e que não tem uma solução rápida ou fácil. Ao organizar-se em dois planos, o ataque coloca no mesmo espaço mais homens que a defesa, organizada em linha simples.


 E as possibilidades são infinitas.

PLANOS ATACANTES

Os planos atacantes distintos (tipicamente 3 em fases estáticas ou fases mais organizadas do jogo) surgiram como resposta ao aumento da velocidade da linha na subida/pressão defensiva. Organizados numa linha contínua, e com a introdução da defesa "rush"e muitas vezes de uma linha "em banana", tornou-se cada vez mais difícil de colocar a bola nos espaços exteriores para exploração do maior espaço entre defesas ou mesmo de vantagens númericas. Ou seja, a defesa passou a conseguir antecipar o ponto de encontro entre a linha atacante e a linha defensiva, passando a "matar" jogadas muito mais cedo.


Ao lançar um plano (unidade) com potenciais/efectivos atacantes para junto da linha de vantagem, os primeiros defensores ficam comprometidos, impedidos de deslizar. Ao colocar um elemento de ligação e um segundo plano (unidade) bem mais profundo, neutraliza-se a acção do(s) elemento(s) mais adiantado(s) da linha defensiva, mesmo "em banana", mantendo-se a capacidade de ataque do espaço criado.



A fórmula pode ser usada em jogadas de primeira fase.

Pode também ser usada em fases de jogo primárias, perante defesas organizadas, permitindo a colocação da bola nos canais exteriores, onde a possibilidade de sucesso no 1x1 é superior, por ali existir mais espaço entre defesas para ser explorado pelos homens mais rápidos da equipa. 

Finalmente, serve como maquete para organização em momentos de vantagem numérica relativa (um 5x3 por ex.), assegurando a manutenção do espaço exterior/vantagem, sobretudo em fases de maior pressão defensiva (22 metros atacantes, por exemplo, onde a defesa preocupa-se mais com a velocidade de subida que com a manutenção da estrutura defensiva).

A Inglaterra, particularmente, tem recorrido ao "template", apresentando um modelo em que se organiza em 2 ou 3 planos, e em que é comum a unidade estar organizada em duas linhas (imagens retiradas a excelente análise de Jeremy Guscott, na Sky Sports).