segunda-feira, 16 de junho de 2014

Nova Zelândia – Inglaterra

Dunedin
14 de junho de 2014
Apontamentos (enfoque no ataque)

 O 2.º test match entre a Nova Zelândia (“NZ”) e a Inglaterra arrancou com grande expectativa, após a favorita NZ ter sido vulgarizada por uma desfalcada Inglaterra na semana anterior no Eden Park em Auckland.

Nesta semana, a única alteração na NZ operou-se no três de trás com a saída do lesionado Israel Dagg para a entrada de Julian Savea, ocupando Ben Smith a posição de defesa. Na equipa inglesa muitas alterações com as entradas de Tom Wood para o lugar de Heskell, Danny Care substituiu Ben Youngs, Tweelvetrees e Luther Burrell tomaram os lugares de Kyle Eastmond e Tuilagi, tendo este passado para a ponta com Marland Yarde, saindo Jonny May do XV inicial.

A primeira parte foi equilibrada com ligeiro ascendente inglês e com 10 minutos finais de ritmo alucinante. A metade complementar foi completamente diferente, com 25 minutos iniciais de domínio total neozelandês (os únicos 25 minutos de “verdadeira” NZ ao longo de 160 minutos das test series) e 15 minutos finais de reação e grande combatividade inglesa.

Menos jogo ao pé e erros individuais, mais jogo à mão, dinâmica e criatividade ofensiva marcaram este jogo.

A pouco mais de um ano do mundial em Inglaterra, as duas equipas assumem-se, desde já, como candidatas ao troféu William Webb Ellis.

NZ

Ataque

A NZ foi uma vez mais surpreendida pela entrada fulgurante inglesa e quando teve oportunidade de iniciar o primeiro ataque, já o jogo ia nos 9 minutos e com 0-10 no marcador.

A receita para a jogada inicial foi a mesma do jogo anterior. Fase estática, bola para o abertura, salto simples para o 13 e este salta o ponto fechado (que está inicialmente já na linha ao lado do 13), colocando a bola no 15. Jogada simples com um só plano ofensivo para ser executada com passes rápidos e muita velocidade de forma a tirar partido do espaço exterior, uma vez que o ponta aberto – Tuilagi – se encontrava a defender mais recuado e largo e o ponta fechado – Yarde - ficou no seu lado. Situação que executada na perfeição poderia dar origem a um ataque de 6 para uma defesa de 4 (9+10+12+13) +1 (Tuilagi) +1 (Mike Brown). Não deu ensaio, mas criou dificuldades defensivas à Inglaterra e esteve na base dos 3 pontos iniciais para a NZ.



De fases estática, os jogadores neozelandeses também insistiram no jogo ao pé (são exemplos o cross kick mal executado para Cory Jane diretamente para fora aos 14:30m e para as costas de Tuilagi que dá origem a uma penalidade aos postes (falhada) para a NZ aos 16:25m). Refira-se que durante todo o jogo a NZ chutou 27 vezes em jogo corrido.

Saltando para os 25 minutos da 2.ª parte de domínio total da NZ (do minuto 42 ao minuto 67), numa clara mudança de atitude e concentração desta equipa. Período esse que abrangeu também a saída de Cruden (com pouca capacidade para liderar e implementar o jogo ofensivo dinâmico a que a NZ nos tem habituado) por  Barrett e a expulsão por 10 minutos de Owen Farrell.

Primeiro uma lição de contra-ataque no ensaio de Ben Smith (ver sequência abaixo). Recuperação de bola de Retallick (tal como na origem do ensaio da semana passada) e de um segundo para o outro a NZ converte uma linha defensiva em duas linhas de ataque, com Ben Smith a assumir a posição de playmaker e Whitelock e Coles de centros. Passando por estes três jogadores, a bola rapidamente chega a Cruden que imprime velocidade ao ataque (fundamental para tirar partido da vantagem numérica), fura a linha defensiva inglesa e com apoio de Savea fora e Ben Smith dentro resolvem a situação facilmente com duas situações de 2x1.









O segundo ensaio começa com dois lances de genialidade técnica neozelandesa. Primeiro, Ben Smith sobe ao último andar para ganhar de forma segura uma bola complicada no ar. Depois, Aaron Smith sai com a bola do ruck e num side step diabólico tira Dave Wilson do caminho (que, para não ser batido no exterior em velocidade, “oferece” o seu lado interior – o do ruck que fica desguarnecido - a Smith) e fez mais de 40 metros até ser apanhado. Depois de algumas fases (penetrações sempre longe da zona do breakdown anterior) em que o perfurador nunca foi o primeiro receptor (com um pick and go pelo meio) e de mudança do sentido do jogo, a bola acaba na ponta de Savea para uma finalização fácil. Importa salientar a simplicidade neste ensaio, utilizando apenas uma linha ofensiva, com permanente ataque do espaço em velocidade, capacidade técnica evoluída do pilar ao 15 e um apoio ao portador da bola que permitiu garantir a posse de bola (curiosamente os offloads só surgem na parte final da jogada).





O terceiro ensaio da NZ resulta dos básicos executados na perfeição e velocidade e de uma “grande” ajuda de uma derrotada defesa inglesa.




Estatística:
  • 567 metros ganhos
  • 11 clean breaks
  • 3 rucks perdidos
Defesa

Na defesa, a NZ mostrou problemas nos momentos iniciais em defender o maul inglês, tendo feito 3 faltas (uma de derrube de maul e duas entradas no maul pelo lado) em apenas 3:25 minutos de jogo.

Defesa de up and out clássica com tentativa de defesa de 2 em 1, procurando o segundo homem parar rapidamente o ataque inglês, evitar o offload ou a reciclagem rápida da bola e tentando, durante o processo, a recuperação da mesma. Refira-se que a NZ manteve muitas dificuldades, essencialmente durante a primeira parte e no final do jogo, em suster a fisicalidade inglesa na zona do 1.º e 2.º canal.

Falha de placagem de McCaw e Cruden muito aberto no primeiro ensaio inglês. No segundo ensaio lenta a recolocação e falha de atenção defensiva no ensaio de Mike Brown. No último...pura displicência quando o jogo já se encontrava resolvido.

Estatística:
  • 74 placagens realizadas
  • 11 placagens falhadas
  • 7 turnovers ganhos
  • 20 turnovers concedidos
Fases estáticas

Nas fases estáticas a NZ revelou algumas melhorias, com mais estabilidade na mêllèe, apesar de ter perdido 2 mêllèes próprias (10 mêllèes de introdução própria conquistadas) e ganho as suas 10 touques.

Faltas: 9

Inglaterra

Ataque

A Inglaterra entrou outra vez com carácter, apostando no maul como principal arma atacante, ganhando três penalidades nos primeiros 3:25 minutos de jogo.





O maul serviu também como base para vários ataques de primeira fase no 1.º e 2.º canal ao longo do jogo. A jogada usada recorrentemente inicia-se com a saída de Danny Care da base do maul em corrida lateral, tendo como opções o ponta fechado no interior (ou exterior curto como no primeiro ensaio), o abertura com uma corrida lateral (quase como se tivesse a fazer uma dobra aos centros) e os centros a cruzarem entre eles. Danny Care funciona como manobrador, aparecendo o ponta fechado e o 13 num primeiro plano ofensivo (perfurante) e o 10 e o 12 num segundo plano ofensivo para jogar no espaço (juntamente com o 15 e ponta aberto, estes então já numa 3.ª linha de ataque bem mais profunda).  





Esta jogada dá o primeiro ensaio inglês aos 7 minutos, graças a uma placagem (invulgarmente) falhada por McCaw e também ao facto de haver um grande buraco entre este e Cruden. Do lado inglês mérito não só para a linha de corrida e potência de Yarde no ataque do espaço, mas também à forma como Care ataca a linha criando indecisão em McCaw que só se apercebe da presença de Yarde na altura do passe para este. Burrell com uma linha de corrida para cima de Cruden obriga este a manter-se fora.


Outra variante da jogada acima confirma a tendência da equipa inglesa em (i) querer incluir o maior número de homens extra no ataque de primeira fase possível (com o formação a sair com a bola para fixar os primeiros homens da linha defensiva e o ponta fechado a aparecer em quase todas as jogadas), (ii) ter pelo menos 3 opções de passe; (iii) haver diferentes linhas de corrida (para o espaço) dos jogadores que dão essas opções; e (iv) ter quase sempre dois planos (por vezes três) ofensivos de ataque (o primeiro perfurante e o segundo para jogar no espaço, sendo, no entanto, os jogadores no segundo plano utilizados amiúde em perfuração nos espaços abertos pelos jogadores da primeira linha ofensiva – ver exemplo abaixo de Yarde).







No jogo aberto a Inglaterra consegue progredir num jogo estruturado e apoiado nos canais 1 e 2, mas parece uma vez mais menos ineficaz no ataque no canal exterior, demonstrando muita lentidão na forma como os jogadores atacam (e não fixam) a defesa neozelandesa (ver imagens abaixo). 




Embora esta tendência tenha melhorado substancialmente face ao primeiro jogo em Auckland e já com alguns movimentos assinaláveis (como na jogada do ensaio de Mike Brown ou na perfuração de Twelvetrees - ver imagens abaixo). Na jogada de Twelvetrees é interessante ver também como os decoys ingleses no primeiro plano ofensivo (e Tom Wood completamente fora de jogo) atrapalham a linha defensiva de Nonu e permitem a perfuração de Twelvetrees. Obstrução?




De realçar ainda a tentativa recorrente de Care em inverter o jogo, tentando surpreender a NZ aproveitando situações de superioridade numérica ou em que tinha jogadores mais rápidos e potentes em relação à defesa no lado fechado para progredir no terreno.

Depois dos 25 minutos de domínio total da NZ na 2.ª parte, a Inglaterra levanta-se “dos mortos” e com um resultado de 28-13 ainda marca dois ensaios.

O primeiro de jogo corrido, a Inglaterra aproveita uma situação de superioridade numérica (1 homem a mais) para marcar um ensaio num ataque com 2 planos ofensivos executado na perfeição. A linha da frente a fixar os três primeiros defensores ingleses. O receptor na segunda linha de ataque põe a bola rapidamente no espaço, criando uma situação de 3 atacantes contra 1+1 defesas. Mike Brown aparece em velocidade e recebe a bola, atacando o espaço interior do defesa que sobrou e só acabou dentro da área de ensaio (toque de meta ou não? Os árbitros dizem que sim).


O último ensaio surge já depois do minuto 80 e com 8 pontos de diferença. A vitória já não iria fugir da NZ (o que poderá justificar , mas não desculpar, a sua displicência defensiva e falhas de placagem), mas os ingleses foram persistentes, demonstrando atitude e carácter.

Estatística:
  •        358 metros ganhos
  •        7 clean breaks
  •        6 rucks perdidos
  •        26 pontapés em jogo corrido
Defesa

A Inglaterra, à semelhança do primeiro jogo, começou muito pressionante, tirando espaço à NZ para atacar e obrigando-a a cometer vários erros ofensivos. Como a NZ, a Inglaterra tentou ter um segundo homem na placagem para evitar o offload ou a reciclagem rápida da bola (para quebrar o ritmo de jogo neozelandês) e tentando, durante o processo, a recuperação da mesma.

Também na sequência do primeiro jogo, a pressão no breakdown da NZ manteve-se intensa resultando em alguns dos 19 turnovers concedidos pela equipa da NZ.

Durante o domínio da NZ no início da 2.ª parte a defesa inglesa foi claramente batida, não só a nível coletivo (posicionalmente foi um descalabro), mas essencialmente a nível individual a falha de placagem foi em alguns casos inadmissível (e.g. ensaio de Nonu). A equipa inglesa não conseguiu a coesão de outros períodos do jogo, abrindo espaços, falhando placagens e tornando-se incapaz de disputar rucks e recuperar bolas.

Durante esse período a equipa inglesa perdeu-se física e psicologicamente e quando toda a gente pensou que até ao final o jogo só teria um sentido, a Inglaterra ressuscitou com a reentrada de Farrell, com a renovada primeira linha, mas essencialmente com a clarividência de Ben Youngs (Care já não estava há muito em campo) e as entradas de Courtney Lawes e Billy Vunipola  (deveriam ter entrado mais cedo?).
  
Estatística:
  • 136 placagens realizadas
  • 31 placagens falhadas
  • 10 turnovers ganhos
  • 19 turnovers concedidos


Fases estáticas

Fases estáticas relativamente estáveis (principalmente a mêllèe), mas não tão infalíveis como no primeiro jogo em que a eficácia de conquista de mêllèes e touches de introdução própria foi de 100%, com recuperação ainda de algumas bolas de introdução neozelandesa. Inglaterra perdeu 3 e ganhou 12 touches próprias e  conquistou as suas 4 mêllèes.

Faltas: 7

Momento do jogo

O assalto à segunda parte pela NZ, mostrando velocidade de execução, domínio dos básicos e, acima de tudo, com uma eficácia mortífera.

Jogadores

Pela positiva...

Dan Coles – jogo impressionante de sacrifício e presença em todo o campo, está no ensaio de Ben Smith, está numa placagem na linha extraordinária aos 47m impedindo um ataque perigoso inglês e perfeição na introdução das touches (100% de eficácia).
Ben Smith – placagem que salvou ensaio no final da primeira parte com recuperação da bola, segurança nas bolas do ar e grande intervenção e dinâmica ofensiva ao longo de todo o jogo, finalizando um ensaio (brilhante a sua linha no apoio) que começou. Poderia, porém, ter soltado mais cedo a bola em várias situações.

Geoff Parling – um trabalhador para a equipa com 18 placagens feitas (mais do que qualquer jogador dentro de campo) e um turnover ganho.
Mike Brown – a arrancada de Tuilagi poderia ter tido outro desfecho se Brown se tivesse aproximado no apoio, mas pela segurança defensiva e no jogo aéreo, capacidade de aparecer na linha e causar desequilíbrios e intervenção nos dois últimos ensaios, merece ser o ¾ de eleição na equipa inglesa.

...pela negativa

Cory Jane – melhorou no período bom da NZ na segunda parte, até lá foram erros individuais atrás de erros individuais.
Billy Twelvetrees – com exceção de um line break na primeira parte, 3 placagens falhadas e 3 turnovers concedidos são números excessivamente negativos numa defesa inglesa que teria de ser imaculada (principalmente na zona de Twelvetrees) para aspirar a ganhar a esta equipa da NZ.

O terceiro test match

Com as test series decididas, estará acima de tudo em jogo o orgulho das duas equipas.

A NZ não estará satisfeita com as suas prestações nestes dois jogos, com efeito, a equipa foi vulgarizada (com exceção de 25 minutos deste segundo jogo) por uma equipa inglesa com qualidade e ritmo de jogo. A imagem que tem deixado não tem convencido o mundo do rugby e neste momento mostra-se vulnerável. A dois meses do Rugby Championship e a pouco mais de uma ano do mundial a NZ – ferida no orgulho - quererá recuperar rapidamente o estatuto e nível a que habituou os adeptos do rugby. A NZ não costuma mudar o XV radicalmente, pelo que se esperam algumas alterações, mas sem que tenham, à partida, um impacto negativo na sua forma de jogar.

A Inglaterra disputa esta 3.ªf um jogo contra uma equipa forte dos Crusaders em que as únicas ausências são os seus All Blacks. Espera-se que seja uma segunda equipa a jogar este jogo e no próximo sábado contra a NZ deverá alinha uma equipa não muito diferente da que iniciou o segundo test match. Fará talvez sentido a entrada de Billy Vunipola e de Courtney Lawes (embora Parling e Launchbury estejam em grande forma) e eventualmente uma mudança nos centros.

Previsão: vitória da NZ

Fonte de dados estatísticos: NZ Herald 

sábado, 14 de junho de 2014

Novo "Blogger" - Rodrigo Falcão Nogueira - Análise NZ v Inglaterra (1.º Jogo)

É um enorme prazer contar com a contribuição do Rodrigo, com quem joguei no CDUL. Porque ele jamais o faria, cabe-me sublinhar a dimensão absolutamente extraordinário do Rodrigo enquanto jogador. Não fosse uma lesão, e teria sido, seguramente, um dos mais brilhantes centros nacionais. Chegou cedo aos Séniores do CDUL e rapidamente mostrou que era um jogador de eleição.

Mais tarde, quando Pedro Mello e Castro era treinador dos séniores (e eu seu adjunto), começou a colaborar connosco fazendo análises dos nossos jogos e dos adversários, que só pecavam por serem esporádicas. Eram sucintas, esclarecidas, iluminadas do ponto de vista táctico. O Rodrigo tem um excelente cérebro para o rugby e por isso é uma honra que faça doravante parte do Mister do Rugby. Enquanto não tem acesso (imposições de umas férias merecidas), publico eu a sua primeira contribuição. Peço desculpa por ser já depois do segundo jogo entre NZ e Inglaterra ter sido disputado, mas também estou por fora, com acesso limitado à internet. 

Nova Zelândia – Inglaterra
Eden Park, 7 de junho de 2014

Algumas notas

Não havia dúvidas, restava apenas saber por quantos iria ganhar a NZ.

A NZ apesar de se ter concentrado uma semana antes do jogo tinha apenas como grande ausência Kieron Read (se excluirmos Savea “substituído” na equipa habitual por Cory Jane e Carter que só agora está a voltar dos seus 6 meses de leave).

No outro lado, a Inglaterra preparava o jogo há mais tempo mas faltava-lhe quase toda uma nova equipa, a que tinha jogado a final do Aviva Premiership no sábado anterior (Tom Wood, Owen Farrell, Luther Burrell, Courtney Lawes, Dylan Hartley, Chris Ashton, Billy Vunipola...) à qual acrescia Danny Care, lesionado. Acrescendo a estas ausências, os jogadores ingleses tinham acabado de fechar uma longa e desgastante época de clubes e viajaram meio mundo, adicionando 11 horas aos seus relógios, para três exigentes jogos.

O site planetrugby.com previa uma vitória da NZ por 18 pontos. Tudo apontava nesse sentido.

Nova Zelândia

A NZ implementou um jogo (insistente) ao pé que não lhe é característico (nem dos seus franchises do Super Rugby), mas que tem vindo a tornar-se uma tendência desde a última ronda de jogos internacionais no final de 2013.

Jogo tático de conquista territorial com pontapés para as costas dos pontas ingleses tanto diretamente das fases estáticas ou dinâmicas por Aaron Smith como em jogo corrido essencialmente por Cruden (excelente também nos pontapés aos postes).

Também de jogo corrido e já bem dentro do meio campo defensivo inglês foram tentados pequenos chutos entre linhas para pressionar ainda mais o 3 de trás inglês, mas estes nem sempre com a eficácia desejada (Nonu com um chuto direto para fora, entre vários outros chutos por Aaron Cruden ou Israel Dagg nem sempre a apanharem desprevenidos os bem posicionados e atentos Mike Brown e Marland Yarde, a mesma consistência não se viu no lado de Jonny May).

Mais eficaz foi a utilização de up and unders que com uma pressão asfixiante e eficaz permitiu não raras vezes recuperar a posse de bola ou forçar o erro inglês.

No jogo à mão, a NZ utilizou várias jogadas diretas para o 3.º canal de fases estáticas, tentando tirar partido do facto do abertura e centros ingleses se encontrarem muito juntos e do ponta aberto se encontrar ligeiramente recuado. Estas jogadas poderiam ter sido outro desfecho (como se viu pela facilidade com que a NZ passou a linha da vantagem por fora aos 13m de jogo), não fossem os invulgares erros (básicos) de handling por jogadores experientes neozelandeses (ex. avants de Dagg aos 50m e Barret aos 60m) ou a incapacidade dos decoys NZ em prender no interior os defesas ingleses (porque não terem tentado a perfuração interior à medida que a preocupação inglesa com o jogo no 3.º canal NZ crescia?).   

Em termos defensivos, a NZ teve muitas dificuldades na primeira parte em defender o jogo físico inglês à volta do ruck e na zona do 1.º para o 2.º canal, onde a Inglaterra gosta de iniciar a sua dinâmica ofensiva. A defesa da NZ subiu de qualidade e tornou-se mais agressiva na segunda parte, com placagens ofensivas muitas vezes de 2x1, permitindo não só ganhar terreno a defender, mas atrasar e desorganizar o ataque inglês.

De realçar as dificuldades da NZ em estabilizar as suas mêllèes com muito mérito do pack inglês confirmando uma vez mais a tendência recente nos confrontos entre estas duas equipas.

Melhor nas touches, mas ainda assim a sofrer uma enorme pressão (uma vez mais com grande mérito) inglesa.

Registo de 1 touche e 1 mêllèe de introdução própria perdidas.

O pior terá mesmo sido a quantidade de erros individuais que permitiram inúmeras recuperações da posse da bola pelos ingleses.

Inglaterra

Uma surpresa a forma coesa e física como entraram dentro de campo apanhando a NZ completamente desprevenida, basta recordar a perfuração pelo meio do ruck do capitão Chris Robshaw (excelente leitura) ainda nem havia um minuto de jogo corrido.

Com um modelo de jogo mais aberto nesta era e com o cunho de Stuart Lancaster e da sua equipa técnica, a Inglaterra foi, porém, especialmente eficaz enquanto fez/aguentou o seu jogo físico dinâmico no 2.º canal, lançando os seus avançados (preferencialmente os mais pesados – 1.ª e 2.ª linhas), centros e Marland Yarde. Fixações iniciais suplementadas com rucks rápidos a garantir a continuidade de jogo e avanço no terreno.

No ataque no terceiro canal estruturado em 2 ou 3 planos/linhas de ataque, foram sempre previsíveis, mesmo com espaço, permitindo uma defesa fácil das linhas NZ. Teria sido, porventura, mais eficaz manter a bola viva no seu canal de conforto...

O ataque foi complementado com um jogo ao pé quase sem falhas de Freddie Burns (foram os chutos dele que muitas vezes puseram o ponto final, com vantagem inglesa, no constante ping-pong de pontapés entre as duas equipas), não só em jogo aberto a descobrir o espaço nas costas das unidades mais recuadas da NZ, mas também nos pontapés aos postes.

Os up and unders foram a tática preferida nos contra-ataques ingleses iniciados – na maioria das vezes - com longos e altos pontapés de Mike Brown. Pontapés objeto de uma pressão asfixiante de Marland Yarde que conseguiu muitas vezes sozinho conter os subsequentes contra-ataques da NZ.

A defesa foi dura e com uma pressão rápida e organizada. A utilização da placagem de 2x1 com eficácia e os contra-rucks (em especial Robshaw) foram nucleares na estratégia para parar os All Blacks, quebrando o seu ritmo de jogo ofensivo e permitindo vários turnovers (foram 7 no total vs 6 da NZ).

É também de realçar que a Inglaterra falhou menos placagens (22 vs 13), não tendo tido também necessidade de fazer tantas placagens (105 vs 82), o que não deixa de ser surpreendente e revelador do quanto o jogo ofensivo neozelandês se alterou.

Nas fases estáticas a equipa inglesa foi dominante e extremamente consistente com uma eficácia de 100% na mêllès e touches de introdução própria.

À semelhança da NZ, a Inglaterra terá cometido também um número exorbitante de erros individuais (infelizmente sem dados estatísticos que possibilitem a comparação).

A derrota inglesa

Num jogo sem qualidade em que só o resultado final foi previsível, valeu a emoção do primeiro ao último minuto.

Pela derrota, muito pode a equipa inglesa queixar-se de si própria pelo excesso de erros individuais, por ter feito faltas no seu meio campo aproveitadas pela NZ e pela incapacidade de manter o ritmo e fisicalidade do seu jogo ao longo dos 80 minutos. Em relação a este último ponto a equipa NZ pareceu menos cansada e com melhores opções a sair do banco (em especial Victor Vito e Barret) o que lhe permitiu intensificar o jogo nos últimos minutos e conseguir alcançar o ensaio da vitória.

Os momentos do jogo

       i. O ensaio não assinalado (e bem) a Freddie Burns por avant de Mike Brown (10m).

      ii. O avant de Ben Youngs que permitiu a arrancada de Retallik e terminou com o cartão amarelo a Marland Yarde (69m).

    iii. A decisão de Cruden em jogar à mão uma penalidade frontal quando o resultado estava em 15-15 que quase deu ensaio e deu origem à mêllèe da qual nasceu o ensaio da NZ (75m).

   iv. O ensaio, a qualidade técnica e velocidade de Ben Smith, a leitura de jogo e experiência de Conrad Smith que antecipando espaço no lado fechado do campo discretamente movimenta-se do lado aberto e se posiciona no exterior do outro Smith recebendo de bandeja o passe para um mergulho que valeu a vitória (76m).

Jogadores

Pela positiva...

·   Jerome Kaino – não fazendo esquecer Read, foi fundamental para combater o jogo físico inglês (juntamente com McCaw).
·    Aaron Smith – foi dos poucos que tentou dinamizar o jogo NZ à mão ou fazendo um bom uso do pé.
·  Chris Robshaw – omnipresente com contribuições decisivas no jogo defensivo. (placagem e breakdown) e como “arma de arremesso” no ataque contra a defensiva neozelandesa.
·    Freddie Burns – pela forma como guiou a equipa e controlou o jogo ao pé.

...e pela negativa

·    Israel Dagg – pela falta de concentração, displicência e erros de principiante.
·   David Wilson –pela incapacidade de integrar o jogo ofensivo inglês no espaço com dois avants evitáveis, em tudo o resto esteve bem.

O 2.º test match

Da NZ, sem Read e Dagg, mas com Julian Savea na ponta e Ben Smith a 15, espera-se que mantenha o estilo de jogo, mas com mais posse de bola (mais risco no jogo à mão) e agressividade durante todo o jogo. O jogo ao pé terá como alvo principal Manu Tuilagi. Com mais tempo de treino com toda a equipa, sem o elemento surpresa do primeiro jogo e orgulho ferido – apesar da vitória – antecipo uma subida grande do nível de intensidade e qualidade de jogo da NZ, certamente um jogo com menos erros e previsivelmente com a criação de mais oportunidades de ensaio.

Com a chegada da cavalaria, a equipa técnica inglesa fez 5 alterações (Tom Wood, Danny Care, Owen Farrell, Billy Twelvetrees e Luther Burrell) que irão conceder mais qualidade, dinâmica e poder de choque nos ¾. Ganha ainda um banco forte capaz de entrar e manter o nível e ritmo de jogo (entre outros, Courtney Lawes, Billy Vunipola, Ben Young, Freddie Burns e Chris Ashton). A mudança de abertura não deverá mudar substancialmente a forma de jogar inglesa nem a qualidade e eficácia do jogo ao pé. Já a inclusão de Manu Tuilagi a ponta e Twelvetrees e Burrell no meio, antecipa uma Inglaterra ainda mais física e perfurante, apostando forte na continuidade de jogo (excelente Twelvetrees no offload) utilizando o 3.º canal menos frequentemente. A inclusão de Danny Care confere criatividade, espontaneidade e mais jogo à mão da equipa inglesa, embora os pontapés tácticos com forte pressão devam ser ainda a principal arma inglesa atacante inglesa dentro do seu meio campo defensivo.

Fonte dos dados estatísticos NZ Herald

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Heineken Cup - o breakdown

Brad Barritt indicou o "breakdown" (jogo no chão) como a chave do sucesso do Toulon. A este reparo não será alheio o facto dos Saracens terem dominado o contacto (e logo o ruck) internamente, na Aviva Premiership. Contudo, a Europa tem sido um jogo diferente: se contra o Clermont a percentagem de rucks foi (como é quase sempre) acima dos 90% e a velocidade de disponibilização de bola melhor caracterizada como atómica, a que se juntaram 14 (!) "turnovers" (recuperações de bola), contra o Ulster, nos quartos de final, os Saracens perderam a batalha do chão. A terceira linha não registou, na Irlanda, qualquer recuperação de bola (apenas duas no total, a cargo da primeira linha, contra 5 do Ulster), e tiveram uma percentagem de rucks ganhos ligeiramente inferior ao opositor. 

Na final, lidaram com uma defesa do Toulon que tinha o propósito claro de:
  • derrubar rapidamente o portador da bola, preferindo placagens baixas (cujo efeito negativo de perda de terreno era compensado por uma velocidade elevada de subida da linha defensiva) = bola imediatamente disponível para disputa;
  • "assist" (segundo placador) muito próximo do placador, no sentido de chegar mais cedo e obter vantagem numérica na disputa da bola.
Os Saracens só poderiam ter saído do colete de forças se conseguissem um "clean out" (limpeza de ruck) mais eficaz e imediato, algo que Vunipola mas sobretudo Burger e Brown nunca conseguiram alcançar. Foram claramente derrotados neste ponto. 
A estratégia era arriscada, porque implicava comprometer mais homens na defesa (que poderiam fazer falta nos canais exteriores, caso a bola fosse disponibilizada rapidamente). Juan Smith e Steffon Armitage foram monstros e materializaram o plano de Laporte. E toda a equipa extremamente rigorosa, porque foi raro verem-se homens desperdiçados no contacto, antes deixando a disputa a 2 ou 3 jogadores, com os restantes a integrarem a linha defensiva. Impressionante! Os exemplos seguintes procuraram demonstrar que os de Toulon foram mais inteligentes na decisão e rigorosos na execução das técnicas de contacto, não necessariamente mais poderosos fisicamente. 
Exemplo 1________________________________________________________________

Juan Smith placa Schalk Britz. Toulon tem Basteraud (13) como assist, Giteau (12) e Mitchell (14) próximos. Os Saracens têm Borthwick (4) como primeiro apoio (na função de clean out) e Farrell (10), Brown (6) e Burger (7) próximos. 


Basteraud, sem falta (está em posição regular, disputa a posse de bola de pé, e não estava em contacto com Britz na placagem e queda deste) consegue trancar a saída da bola. Borthwick é ineficaz na limpeza (veja-se como caí para lá da linha da bola, sem ter movido a ameaça à bola), Brown e Burger chegam tarde, e tentam limpeza por cima do corpo trancado de Basteraud (excelente técnica de "jackal", i.e. sobre a bola). 1 x 3 e Basteraud venceu o duelo. Excelente.
Exemplo 2________________________________________________________________


Hayman (3) placa B. Vunipola (8), que tem Brown (6) a fazer "martelo" e Matt Stevens (3) próximo. Juan Smith (6) está bem próximo e Chiocci, mais longe, prepara-se para ser o "assist" (segunda placador). 




Vunipola progride mas, placado baixo, cai. Hayman está fora do processo porque não consegue levantar-se. Chiocci, fabuloso, aproveita o facto de Brown não poder cair com o jogador placado (seria falta - o famoso "bridging") e ganha o espaço critico por cima da bola, através da sua posição baixa mas segura. Brown, muito próximo, já só consegue tentar o "clean out" através da pega de crocodilo, i.e. por cima e virando o adversário, mas que exige domínio físico. Brown é pelo menos 20 Kgs mais leve que Chiocci e não consegue limpar o pilar francês. Smith, inteligentíssimo, compreende que a sua acção não será necessária (ou a bola é recuperada ou então está perdida e mais vale defender), optando por integrar a linha defensiva. Rigor, critério, zero desperdício. Com gente inteligente é mais fácil. Pela negativa, Matt Stevens que não compreendeu que teria de atacar a situação pelo eixo, e optou por manter-se bem próximo e lateral, ou seja, em situação de inutilidade absoluta.


 
Juntam-se à festa M. Vunipola (1), Borthwick (4), Britz (2) e Wigglesworth (9) mas a falta (não libertou a bola) já havia sido cometida por B. Vunipola (8). Com 2 homens, o Toulon recupera a bola protegida por 3 homens dos Saracens. 

Neste particular, sublinhado ao brilhantismo da decisão dos franceses, que sempre que B. Vunipola era o portador, preferiam placar baixo, mesmo que isso implicasse ligeira perda de terreno. A decisão, acertada, justifica-se em duas penadas: se placassem alto, B. Vunipola continuaria a progredir e quando finalmente caísse no chão, teria o apoio suficiente para assegurar a posse de bola. B. Vunipola nunca conseguiu adaptar-se, e não fez o que já antes fizera pela Selecção: marcado, disponibilizar a bola no espaço para colega melhor colocado. 
Exemplo 3________________________________________________________________
 

Uma imagem vale mil palavras... 6 Saracens contra 2 do Toulon. Falta do jogador inglês, por não largar a bola.

Exemplo 4________________________________________________________________



Lobbe (7) placa, S. Armitage é o "assist". Borthwick (4) parece um pouco isolado, embora surja já Britz (2) para o "clean out". 



S. Armitage (aparentemente em falta, porque cai com o Borthwick; só pode disputar a bola depois de largar o placado) adopta desde logo posição de "jackal" perfeita, com as mãos sobre a bola e de pé. Britz e Ashton (14) vão chegar atrasados.



Falta! Borthwick não largou a bola. Segredo desta recuperação de bola: a velocidade com que Borthwick foi placado e colocado no chão - a bola passa à condição de disputável - e retirando tempo ao apoio atacante.

Exemplo 5________________________________________________________________







Nesta sequência, que envolve os inevitáveis S. Armitage (placador) e J. Smith ("assist"), o árbitro marcou penalidade de Strettle, que não largou a bola. Contudo, é evidente que J. Smith foi quem primeiro prevaricou, ao abraçar firmemente Strettle na sua viagem até ao chão. O placador (primeiro ou "assist") tem de largar o placado, e só depois pode disputar a bola. 

E soluções?
Isto de comentar no cadeirão é um pouco como os famosos prognósticos no futebol: só depois do jogo. E no entanto, os Saracens sabiam que iam defrontar uma equipa que, em 8 jogos (6 jornadas + QF + MF) tinha registado 56 recuperações de bola (média de 7 por jogo) e um jogador em particular, Steffon Armitage, com 13 "turnovers" em seu nome. Ou seja, uma equipa proficiente na colisão defensiva, placagem e técnica de "ruck". A título de curiosidade, a única equipa que este ano, na Heineken Cup, não concedeu qualquer "turnover" foi o Munster, nos QF. O que acaba por não surpreender, se nos recordarmos da lição que o pack Irlandês deu ao pack Galês na primeira jornada do 6 Nações deste ano. Muito semelhante.
Com a devida vénia ao João Pedro Varela, cujo segundo périplo pela NZ resultou num avolumar do seu já impressionante conhecimento oval, e que teve a generosidade de partilhar, entre outras, esta ideia, os Saracens poderiam ter insistido no que lá por baixo se vai fazendo e a que poderemos chamar de "early clean out", i.e. limpar o homem (o "assist") antes do "ruck" formado. A legalidade deste expediente será seguramente sindicada no futuro. Mas por ora, poderia ter ajuda a anular a omnipresença da terceira linha francesa no ponto de queda.

 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Final da Heineken Cup - algumas notas

Houve quem se considerasse defraudado com a final, em virtude da falta de espetacularidade do jogo. No entanto, o jogo foi incrível, porque o nível de intensidade foi absolutamente estrondoso, e o aproveitamento clínico das - poucas - oportunidades pelo Toulon absolutamente magistral.