domingo, 3 de maio de 2015

Bath - estrutura de ataque

O Bath de Mike Ford tem estruturas de ataque incríveis e são a equipa com a ideia de jogo mais interessante da Aviva Premiership.

Uma das mais eficazes e simples - não por acaso - é a utilização de 3 atacantes curtos, na zona do Guarda/Poste/3.º homem e comandante de subida da linha defensiva, alinhados como num "power" típico de Gales ou Austrália 2010, e com um penetrador/manobrador nas costas, que identifica o espaço criado e penetra.



Exemplo perfeito: minuto 1:16 do vídeo em baixo (repare-se na linha e tempo de Ollie Devoto, mas também no apoio perfeito do ponta fechado, Rokoduguni e da aproximação do centro Kyle Eastmond, convergindo no apoio para o ponto de penetração. Poesia em movimento).


Alternativamente, o penetrador (que jeito dá ter George Ford) pode transformar-se em distribuidor, e jogar no segundo plano, que deve estar alinhado com o tempo de recepção e passe do penetrador/distribuidor, certificando-se que não lateralizam linha de corrida, preservando a verticalidade necessária para manter a defesa concentrada ou atacar os espaços de uma defesa estendida.

Armitage (e Abendanon): tempos de opinião

Eddie Butler, cronista do "The Guardian", juntou a sua voz ao coro de opiniões que reclamam a presença de Steffon Armitage, e também de Nick Abendanon - embora os dois casos sejam distintos, na minha opinião - nos eleitos de Stuart Lancaster para o Campeonato do Mundo.

Restam poucas dúvidas que Armitage é um dos melhores jogadores do mundo, e um "7" singular. Com a acção sobre a bola de McCaw ou Pockock, o jogo de continuidade de Hooper, o poder de ganhar metros de Louw, com um baixo centro de gravidade que o torna um placador devastador, Armitage é um terceira linha fenomenal. Como pode Lancaster deixar este craque de fora das suas escolhas, particularmente quando não tem à sua disposição ninguém com características semelhantes? Armitage é a arma que falta no arsenal inglês.

Na semana em que a Austrália, evidenciando uma enorme dose de bom-senso e pragmatismo, anunciou que Michael Cheika poderá convocar jogadores a jogar no estrangeiro - viabilizando as chamadas de Matt Giteau ou Drew Mitchell, por exemplo - regressaram em força as questões em torno da política de convocatórias inglesa e a ambígua cláusula das "circunstâncias excepcionais". A regra diz que são seleccionáveis os que joguem em Inglaterra; mas o seleccionador pode convocar outros, nomeadamente os que jogam em França, em "circunstâncias excepcionais".

Clive Woodward tem sido um dos mais fervorosos adeptos da cooptação de Armitage, recorrendo a um aforismo que considera insofismável: a selecção tem de contar com os melhores, e Armitage é o melhor na posição; acresce que, em ano de Mundial, estão reunidas as tais "circunstâncias excepcionais" que justificam a derrogação da regra. Woodward apresenta uma argumentação convincente. Contudo, parece-me que ignora - voluntariamente - as diversas implicações que a decisão de Lancaster acarreta e que extravasam o mero aspecto desportivo. 

A questão do tecto salarial na Premiership está na ordem do dia, e agora que os Franceses "perderam a cabeça" em matéria de remunerações, uma loucura possibilitada pelas chorudas receitas advenientes do novo contrato de direitos de transmissão TV, a eventual chamada de Armitage ou de Abendanon daria um forte impulso ao encantamento e sedução exercido pelo "joi de vivre" sobre os internacionais ingleses. Esta perspectiva de depauperamento do campeonato Inglês não terá grande interesse estratégico para os patrões de Lancaster...

Por outro lado, Woodward urde a sua teia em torno da noção de resultado, lembrando que os treinadores são exclusivamente julgados em função das vitórias. Terá razão, mas uma andorinha não faz a primavera (leia-se um jogador não faz uma equipa) e alguns dos actuais internacionais - Tom Youngs e Wood, nomeadamente - não se coibiram de manifestar a sua discordância face à eventual convocatória de jogadores a jogar no além fronteiras, sugerindo inclusivamente que a chegada de um "estrangeiro" poderia ter consequências na moral da equipa. Sobre esta intervenção com tonalidades de ultimatum, Drew Michell apresentou um argumentário que deveria ser objecto de reflexão em Twickenham: se a cultura é efectivamente forte, a integração de um ou dois jogadores não a colocaria em causa, correcto?

Parece-me que a questão acaba por ser simples. Armitage só não será convocado por uma de duas pessoas: Lancaster treinador ou Lancaster dirigente. Parece-me que pensar-se que neste momento é o treinador que decide é ignorar o fundamento da questão, e chega a ser insultuoso para um homem da estatura de Lancaster.

Quando chegou à selecção, Stuart Lancaster deparou-se com um grupo partido, sem líderes nem resultados desportivos, que destacava-se apenas pelos escândalos acumulados: lançamento de anões, alegadas infidelidades envolvendo o capitão e uma princesa do Reino, mergulhos durante uma viagem de ferry em Auckland e umas "orelhas de coelho" oferecidas ao primeiro ministro David Cameron, por ocasião duma fotografia oficial. Evidências inequívocas da "cambada de bêbados", egoístas, irresponsáveis e imaturos, que por acaso equipavam com a rosa ao peito. Em muito pouco tempo, Lancaster revolucionou a cultura da equipa e varreu a "bandalheira". Os jogadores passaram a respeitáveis e respeitados, rigorosos e educados, porta-estandartes da forma correcta de estar neste desporto, sem escândalos e com compromisso, esforço e talento. Durante este processo, é natural que Lancaster tenha feito juras de fidelidade que não pode agora quebrar; terá sido essa a forma de convencer alguns  rufias - Hartley, Mike Brown, Tuilagui, etc. - a personificar o seu ethos, a nova ordem da rosa. Porém, as juras têm um limite. Nenhum treinador no mundo promete a um grupo que não escolherá em função do rendimento, da qualidade humana, física, táctica e técnica, do nível de integração no grupo, da mesma forma que nenhum treinador diz a um jogador que ele fará parte da equipa, independentemente da sua contribuição. E Armitage, a priori, não teve sequer oportunidade para demonstrar incapacidade para integrar a equipa, aceitando os seus valores e regras. Lancaster, o treinador, jamais deixará Armitage de fora dos eleitos para o Mundial.

Mas na sua condição de comandante do rugby inglês, Lancaster é mais que um mero treinador; é também um homem cujas decisões têm um impacto na forma de governação da modalidade em Inglaterra. Pensemos no seguinte silogismo:
a) - Lancaster convoca Armitage para o Campeonato do Mundo;
b) - em 2015/16, cerca de 15 a 20 jogadores internacionais ingleses mudam-se para França, onde encontram contratos chorudos;
c) - a Aviva Premiership perde qualidade, número de espectadores e as receitas publicitárias associadas à venda dos respectivos direitos TV descem a pique;
d) - os clubes da Aviva pressionam a RFU, federação inglesa, para abolir o tecto salarial, conseguindo assim atrair os melhores talentos do mundo, provenientes da Nova Zelândia, Austrália, África do Sul ou Argentina;
e) - com a chegada em massa de talento estrangeiro, o número de jogadores qualificados para representar a selecção inglesa presentes nas listas de jogadores da Aviva Premiership sofre uma redução significativa;
f) - pressionados pelos orçamentos cada vez mais elevados (fruto dos aumentos salariais), os clubes forçam a RFU a aceitar a abolição do sistema de promoção/despromoção com o Championship (segunda divisão), garantido assim que os investimentos realizados são feitos num contexto económico estável;
g) - Rob Andrew, director de rugby professional da RFU, queixa-se que a qualidade de jogo da selecção inglesa está a diminuir, em resultado do cada vez menor número de jovens jogadores ingleses presentes na Aviva Premiership.

O exercício anterior, que é neste momento pura ficção, será a realidade provável caso Lancaster convoque Armitage ou Abendanon. Por isso, as críticas dirigidas a Lancaster, que do ponto de vista desportivo são no mínimo atendíveis, não têm em consideração aquele que julgo ser o seu real fundamento. Em última análise, a decisão nem sequer é de Lancaster, que não obstante fica colado a uma injustiça tremenda relativa a um dos melhores jogadores da actualidade.

P.S. - Armitage saiu de Inglaterra em 2010 e não era, na altura, o jogador que hoje é. Abendanon saiu este ano e mostra as mesmíssimas qualidades e defeitos que o elevaram à condição de internacional e num dos mais entusiasmantes jogadores ingleses, mas também um dos menos consistentes defensivamente. Não existe no grupo às ordens de Lancaster um jogador com as características de Armitage, ao passo que Mike Brown e sobretudo Anthony Watson são dois defesas com reconhecida capacidade atacante, no contra-ataque e defensiva. Por isso considero que as duas situações são profundamente distintas.


quinta-feira, 12 de março de 2015

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Os Polivalentes

Um querido amigo, magnífico treinador e excelente líder, o João Pedro Varela, recomendou-me o livro “Wooden on Leadership: How to Create a Winning Organization”, colocando-me dessa forma na rota dos processos de liderança propugnados por treinadores de basquetebol, primeiro norte-americanos e mais recentemente nacionais também – tive o imenso prazer de conhecer, no final de 2014, o Professor Jorge Araújo, cuja magnífica obra deixará um legado de excelência.

Nesta caminhada, foi-me dada a ler uma entrevista a Mike Krzyzewski, o “Coach K”, treinador da equipa universitária de basquetebol de Duke há 31 anos e dono de um currículo invejável, que inclui trabalho titulado com o “Dream Team” de 1992, que incluía Jordan, Larry Bird ou Magic Jonhson, e ainda a equipa Olímpica norte-americana de 2012, que apresentava Kobe Bryant e LeBron James. A entrevista, cuja leitura é altamente recomendada, deixa clara uma ideia que Wooden introduzira e que os All Blacks transformaram em mantra inderrogável: melhores pessoas resultam em melhores jogadores. E por isso, a entrevista do “Coach K” deixa transpirar alguns dos princípios da sua liderança:
  • responsabilização dos jogadores: inclusão dos jogadores nos processos de definição dos princípios que orientam o ambiente da equipa, por oposição à imposição de regras que resultam da visão do treinador; 
  • preocupação com o carácter do jogador: vida familiar, hábitos alimentares, de saúde e alimentação, relações de amizade, rendimento escolar ou profissional, etc. A vertente técnica e táctica é apenas uma dimensão da avaliação, e não necessariamente a mais relevante; 
  • fomento de um ambiente de felicidade competitiva, em que coexistem a responsabilidade e o prazer de jogar e pertencer, por oposição à limitação imposta pela pressão que resulta, natural e inelutavelmente, da paradigma competitivo assente na vitória e derrota, no céu e no inferno.
Dei por mim a pensar que um dos maiores desafios na gestão de uma equipa é o da justiça, esse conceito forçosamente relativo, que assume tonalidades e matizes distintas consoante os olhos em que se projecta. E se os princípios – “standards”, critérios – ajudam o treinador a resolver virtualmente todas as situações de conflito, sobretudo se decididos e supervisionados pelos líderes do grupo, existe um dilema em que o ambiente, por mais saudável que seja, não exonera o treinador da sua função: a eleição dos que jogam. Um drama temido ou desejado, consoante represente a penúria ou sobejidão de opções, mas que o deixa só perante os sujeitos do seu arbítrio. E neste âmbito, os polivalentes surgem como o magno drama do talento.

Em 2011, quando treinava o CDUL, foi-nos oferecido um jogador com um currículo que não devia enganar: capitão de equipa de uma província neozelandesa, várias épocas de ITM, idade que indiciava experiência q.b. e ainda o fogo de superação, uma presença física assinalável. No entanto, decidimos contra a sua vinda. Estávamos à procura de um segunda linha, um saltador, e o jogador em questão podia jogar na primeira e na segunda. Não consigo explicá-lo de outra forma; quando me apresentaram um jogador como sendo capaz de desempenhar, adequadamente, duas funções distintas (sobretudo nas fases estáticas, em que as exigências específicas da posição são significativamente dispares), não acreditei que o pudesse fazer, ainda que tivesse um registo de competência num campeonato com muito maior qualidade que o nosso. Olhando para trás, vejo que muito provavelmente cometemos um tremendo erro, ao sermos vítimas do preconceito associado à polivalência. O Ruben Amorim, no futebol, queixa-se de algo semelhante...

Talvez esta nossa desconfiança subliminar, intuitiva, inconsciente, radique na visão que temos sobre os multifacetados, não apenas no desporto. Quantas pessoas conhecemos com talento para escrever, cantar, fazer contas, organizar eventos e jogar um desporto qualquer? E quantas vezes não acusamos esta mesma pessoa de dispersão, de tentar fazer um pouco de tudo sem nunca chegar a fazer nada verdadeiramente bem? Não pretendo entrar numa discussão do que está certo ou errado, porque há muito que vou compreendendo que a métrica do sucesso não obedece, inevitavelmente, à escala dos euros. Mas do ponto de vista da execução técnica e táctica, sobretudo em ambientes de pressão, talvez esta desconfiança tenha alguma razão de ser. As pessoas que fazem de tudo um pouco são, tendencialmente, demasiado felizes para se preocuparem excessivamente com o resultado numérico, final, mensurável. E o desporto não comporta a noção de vitória moral. Warren Gatland, um convertido a estas coisas da inclusão responsabilizante, assinala esta ambiguidade intrínseca do desporto de alta competição de forma desassombrada, numa entrevista recente. No fim de contas, o treinador escolherá, entre o romântico e o pragmático, o segundo em nome da ditadura do resultado. "I like winning. I don't believe in the bull of playing well and losing, I'd rather play like crap and win a game any day of the week." Gatland dixit. (Nunca dependi do treino para viver, por isso parte da minha alma de treinador reside ainda no campo romântico. Mas falta-me a legitimidade de quem tudo venceu).

Lembro-me, por exemplo, do Carl Murray, que pode jogar de 10 a 15 na linha atrasada de qualquer equipa nacional (e jogou pela Selecção Nacional a 12 e 13, pelo CDUL recentemente a 13 e 15), mas que comigo nunca foi outra coisa que não um 15. Lembro-me, também, de um Nuno Penha e Costa regressado, em 2011, de alguns meses de Bay of Plenty e com um “andamento” extraterrestre. Ele, que saíra de Portugal como um 15, foi durante larga parte de 2011/12 um 10 que revolucionou a estrutura atacante do CDUL, com a sua capacidade de decisão notável. Mas só o foi porque um não menos notável Pedro Cabral começou a época lesionado e não havia alternativa viável. A necessidade derrotou a minha incompetência desconfiada. O Nuno acabou por regressar ao três de trás, quando o Pedro recuperou a forma que o transformou num “abertura” sem paralelo na capacidade de resolver, a nível do CDUL e também da Selecção.

A resposta é, como em tudo, simples: o critério tem de ser, sempre, o da qualidade. Se um jogador tem capacidade para desempenhar várias funções e papéis num esquema táctico, deve ser recompensado pelo facto, e nunca castigado. Se algum dia voltar a treinar, tentarei melhorar também neste aspecto. Afinal, como diz o “Coach K”, o treino vicia porque ao tentarmos melhorar os nossos jogadores, estamos inexoravelmente comprometidos com o processo de nos melhorarmos a nós mesmos.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

sábado, 19 de julho de 2014

Formar para vencer



http://www.rfu.com/ruckley/~/media/Images/2013/Ruckley/Play_rugby_250.ashx

É uma inevitabilidade: andamos no desporto de competição para vencer. Nesse aspecto, é um pouco como a política (já regresso a este ponto). E tudo o que é feito numa organização desportiva tem como fito último a vitória, mesmo no caso das organizações que valorizam o processo em detrimento do resultado – fazem-no, na sua maioria e paradoxalmente, porque acreditam que ao valorizar o processo, ficam mais próximos de alcançar o resultado. Por processo entenda-se não só os procedimentos, mas também o conjunto de normas que regem toda a conduta dos membros integrantes, i.e. a cultura da equipa.

O imperativo da vitória

A verdade, porém, é que o desporto competitivo não admite a sobrevivência de processos que redundem, sucessiva e maioritariamente, em derrotas. É claro que a noção de vitória varia consoante a organização – para uns serão títulos, para outros classificações meritórias (pelo menos até ao momento em que estas sejam em número tal que os títulos passem a ser exigidos), para outros ainda resultados financeiros associados à exploração da actividade desportiva. De todo o modo, é de vitória que falamos em competição, independentemente do significado circunstancial.

Contratar ou formar?

A questão da formação de jogadores está em voga (no rugby, seguramente, mas também no futebol), e está intimamente relacionada com este paradigma existencial do desporto competitivo. Para vencer precisamos de jogadores; que por sua vez terão de ser angariados/contratados, ou formados. Note-se que a formação não exclui – deve, aliás, atender e entender – esse maravilhoso e aberrante fenómeno da geração espontânea, que permite que miúdos que jogaram toda a vida descalços, com cocos ou amontoados de papel colado no lugar de bola, em pelados invadidos por crateras e calhaus, sejam hoje o Samuel Eto’o ou o Rupeni Cacaunibuca.

Se a contratação apresenta a vantagem de não exigir estrutura significativa, na medida em que meia dúzia de olheiros “varrem” o globo com recurso às actuais e inúmeras ferramentas tecnológicas, nem outro investimento que não seja o correspondente à eventual aquisição de direitos desportivos, encerra um risco significativo, já que a observação não nos oferece garantias quanto ao tipo de jogador que estamos a recrutar para a nossa organização, e muito menos o tipo de pessoa. Basta recuperar, como demonstração, as memórias de incontáveis expectativas frustradas com contratações de jogadores, que se revelaram um flop.

Inversamente, o processo formativo permite que acompanhemos o desenvolvimento das vertentes motoras, técnicas e tácticas do jogador, fomentando, crítica e essencialmente, a identificação com a cultura do clube. Contudo, a formação exige um investimento apreciável, sobretudo em pessoas – e não tanto em infraestruturas, contrariamente à crença popular – que tem retorno variável e inevitavelmente a longo prazo.

Risco e recompensa

Sobre o rácio risco/recompensa falarão com maior propriedade os economistas, que reduzem praticamente tudo a números, e o desporto também. Recordo o furor causado nas massas pelo Moneyball, que encontra paralelo na obsessão analítica em voga nos anos ’90, com a introdução dos softwares de análise de jogo. O desporto não se contém em números ou estatísticas, mas seria estúpido ignorar a boa informação que a matemática analítica nos oferece.

Quando se contrapõe formação a contratação, referimo-nos essencialmente a risco e recompensa. Compreende-se a dificuldade de afirmação das valências da formação, como ferramenta primordial de recrutamento e composição de um plantel. Primeiro, porque os treinadores têm ciclos nas equipas – como os políticos, nos cargos que ocupam – e sentem a necessidade, largamente injustificada, de apostar em gente que conhecem, “batida” e que apresente resultados imediatos; injustificada porque não existe no mundo calculadora capaz de enumerar as contratações falhadas, algumas pagas a peso de ouro. Para estes, a aposta nos miúdos fica para depois, para alguém que “feche a porta”; as semelhanças com a política são recorrentes.

No entanto, estou convencido que o facto que concorre primordialmente para a desvalorização do processo formativo é a circunstância das organizações valorizarem sobretudo – e porventura unicamente – a contribuição técnica e táctica do jogador, sem consideração pelo carácter, temperamento e adequação à cultura da organização. É claro que com “coxos” ninguém ganha, mas sou dos que acredita que não basta saber chutar, passar e placar. Um bom jogador tem de ser, como recordou com perspicácia o Francisco Pereira Branco no P3, acima de tudo, ainda melhor pessoa. Enquanto não for outorgada dimensão crítica ao ethos, a formação será sempre um expediente para “inglês ver”, ou para cumprimento de coloridas regras ad hoc, algures entre os jogadores formados localmente da UE e as quotas raciais na África do Sul (não se leia neste apontamento qualquer crítica a estas regras, que podem até ser necessárias; lamenta-se apenas que o estado de coisas exija que alguém a pense).

Apenas a vitória

Não proponho que se defenda nada mais que a vitória. Acredito que o caminho mais sustentável para lá chegar é através da formação de culturas fortes, assentes na integridade, qualidade motora, técnica e táctica, que por sua vez exige uma aposta forte na qualificação de quadros formadores, que resultarão em melhores jogadores e melhores pessoas. O recrutamento terá sempre um papel complementar, importante.

A Alemanha campeã do mundo anda desde o início do século a pensar nestas coisas, com o sucesso que se conhece (uma liga profissional com estádios cheios, lucrativa, níveis de participação em máximos históricos, o quarto campeonato do mundo). 

Talvez tenhamos investido demasiado tempo e – não nos iludamos – dinheiro em apenas parte da equação. O problema maior é que não se vislumbra, no rugby como no futebol, quem se preocupe em caracterizar o contexto, em identificar virtudes e faltas, em apresentar e discutir soluções. Estamos sempre a tempo.


quarta-feira, 18 de junho de 2014

"Earning the right to go wide" - falência de modelos

Tive o distinto prazer de ser treinado no CDUL por João Paulo Bessa (cujo verbo pode ser consultado no seu XVcontraXV e no P3) e tenho o ainda maior prazer de ser seu amigo, e de com ele poder falar sobre rugby. O arquitecto ensinava com singular simplicidade o muito discutido, e em voga, conceito de ganhar o direito a alargar o perímetro de jogo (earning the right to go wide), recorrendo apenas aos seus braços.

A ideia é simples. A linha defensiva organizada ocupa o espaço disponível para atacar. 

Ao atacar a linha defensiva, e quebrar essa mesma linha, obrigamos a defesa a concentrar e contrair, libertando espaço exterior. Ou seja, ao vencermos a batalha física, obrigamos o adversário a chamar mais recursos (homens) para o ponto de quebra; homens que passarão a faltar nos corredores exteriores (ou interiores, se não houver reorganização defensiva). 



E se esta ideia é insofismável, reflectindo na perfeição o imperativo do domínio físico da colisão como pressuposto táctico para o sucesso, a interpretação que alguns dela fazem, ainda que circunstancialmente, pode ser redutora. Warren Gatland, um dos mais bem sucedidos treinadores da era moderna, que o diga. 

Gatland distinguiu-se em Waikato, de onde herdou a superioridade no confronto físico como elemento essencial da sua forma de jogar. Com quinze jogadores directos e prevalecentes na colisão, com capacidade para gerar bola rápida no "ruck", e com uma dinâmica de sucessão de "rucks" curtos (o chamado "around the corner"), Gatland juntou-lhe uma defesa pressionante dominante, cortesia de Shaun Edwards, e um jogo ao pé apostado em manter a bola dentro de campo, ciente que as leis de jogo na primeira década do Séc. XXI favoreciam a defesa e a recuperação de bola, no jogo no chão. Foi assim que dominou o campeonato Inglês nos anos 90, com os Wasps, que venceu 3 Seis Nações, incluindo 2 "Grand Slams", e a primeira vitória dos Lions, em 16 anos, frente à Australia em 2013. 

Mas as Seis Nações de 2014 demonstraram, com cristalina evidência, que o jogo evoluiu. Não foram os 3/4 galeses que perderam velocidade ou capacidade técnica. Deixaram foi de gozar do espaço e bola que antes lhes permitia o rugby mais vistoso a norte do equador. As duas equipas que melhor se adaptaram às novas regras e tendências tácticas, Irlanda e Inglaterra, foram as que mais intensamente brilharam na edição de 2014. E o Warrenball precisa de ir à revisão (na opinião ilustre de Clive Woodward, Brian Smith ou Gwyn Jones). Se Heineke Meyer conseguiu pôr os Springboks a jogar de forma um pouco distinta, Gatland consegui-lo-à seguramente. Material tem ele (veja-se a título de curiosidade o incrível ensaio de Cuthbert a semana passada).

A conclusão certa é que não existe, hoje, uma forma correcta de atacar. Tudo depende das questões colocadas pela defesa. 

Perante uma defesa rush out-in (como a dos Stormers ou o Wolfpack dos Saracens), podemos usar o passe ao pé para o espaço lateral vazio nas costas dos defensores exteriores pressionantes, ou organizar planos em profundidade para alargar o jogo desde as primeiras fases de jogo, aproveitando o espaço exterior disponível. 

Perante uma defesa deslizante in-out clássica, como a que os All Blacks adoptaram na primeira parte do jogo, importa atacar a linha da vantagem e "prender" a defesa, antes de alargar o perímetro.

Flexibilidade e adaptabilidade parece ser o nome fulcral no desenho de um modelo de jogo.

O modelo de jogo é a cartilha essencial que define os princípios de acção de uma equipa, introduzindo - em doses variadas, de acordo com a crença da equipa técnica - as estruturas que organizam as acções colectivas da equipa. Procura-se, desta forma, oferecer aos jogadores a segurança de um processo mental de decisão a que aderem todos os que compõe a equipa, com evidentes ganhos a nível de coordenação das contribuições individuais. A eficácia de uma equipa será sempre maior se, em determinada acção, os diversos jogadores envolvidos decidirem por referência a regras comuns, que todos compreendem e aceitam: cada um cumpre o seu papel, seguro que os papéis complementares, desempenhados pelos companheiros, serão também cumpridos e devidamente interligados ao seu. 

O modelo de jogo inclui, necessariamente, subtilezas e possibilidades, que pretendem reflectir as valências e defeitos do adversário, a especificidade das condições climatéricas, ou uma ideia concreta sobre a melhor forma de encarar um jogo específico, ou uma sua respectiva parte: são os planos de jogo. E assim conseguimos a tal flexibilidade.

Ainda recentemente Justin Marshall falava sobre a necessidade de ter um plano de jogo que sirva as características dos jogadores que o vão interpretar. Algo que Eddie Jones conseguiu implementar no Japão com sucesso assinalável, e que os Crusaders têm feito com sucesso inigualável nos últimos quase 10 anos. Contudo, Marshall, um histórico de Canterbury, considera que a adesão demasiado fiel às estruturas pensadas pelos treinadores de Christchurch retirou espontaneidade e capacidade de improviso aos jogadores. Por outro lado, Marshall também opina que o actual modelo não serve os interpretes; centrando a análise na estrutura vertical a partir de fases de jogo estáticas ou organizadas, que assenta em penetrações na primeira linha e lateralização para ataque de espaços exteriores criados, Marshall nota que sem Sonny Bill Williams e Robbie Fruean, Ryan Crotty não consegue jogar dentro da defesa com a mesma eficácia, permitindo que a defesa deslize anulando a lateralização criada na segunda linha.

Os Crusaders parecem ter ajustado o seu plano, a que não terá sido alheio o regresso de McCaw e Read, antes da paragem de Junho. Os resultados estão a surgir no momento certo.



segunda-feira, 16 de junho de 2014

Nova Zelândia – Inglaterra

Dunedin
14 de junho de 2014
Apontamentos (enfoque no ataque)

 O 2.º test match entre a Nova Zelândia (“NZ”) e a Inglaterra arrancou com grande expectativa, após a favorita NZ ter sido vulgarizada por uma desfalcada Inglaterra na semana anterior no Eden Park em Auckland.

Nesta semana, a única alteração na NZ operou-se no três de trás com a saída do lesionado Israel Dagg para a entrada de Julian Savea, ocupando Ben Smith a posição de defesa. Na equipa inglesa muitas alterações com as entradas de Tom Wood para o lugar de Heskell, Danny Care substituiu Ben Youngs, Tweelvetrees e Luther Burrell tomaram os lugares de Kyle Eastmond e Tuilagi, tendo este passado para a ponta com Marland Yarde, saindo Jonny May do XV inicial.

A primeira parte foi equilibrada com ligeiro ascendente inglês e com 10 minutos finais de ritmo alucinante. A metade complementar foi completamente diferente, com 25 minutos iniciais de domínio total neozelandês (os únicos 25 minutos de “verdadeira” NZ ao longo de 160 minutos das test series) e 15 minutos finais de reação e grande combatividade inglesa.

Menos jogo ao pé e erros individuais, mais jogo à mão, dinâmica e criatividade ofensiva marcaram este jogo.

A pouco mais de um ano do mundial em Inglaterra, as duas equipas assumem-se, desde já, como candidatas ao troféu William Webb Ellis.

NZ

Ataque

A NZ foi uma vez mais surpreendida pela entrada fulgurante inglesa e quando teve oportunidade de iniciar o primeiro ataque, já o jogo ia nos 9 minutos e com 0-10 no marcador.

A receita para a jogada inicial foi a mesma do jogo anterior. Fase estática, bola para o abertura, salto simples para o 13 e este salta o ponto fechado (que está inicialmente já na linha ao lado do 13), colocando a bola no 15. Jogada simples com um só plano ofensivo para ser executada com passes rápidos e muita velocidade de forma a tirar partido do espaço exterior, uma vez que o ponta aberto – Tuilagi – se encontrava a defender mais recuado e largo e o ponta fechado – Yarde - ficou no seu lado. Situação que executada na perfeição poderia dar origem a um ataque de 6 para uma defesa de 4 (9+10+12+13) +1 (Tuilagi) +1 (Mike Brown). Não deu ensaio, mas criou dificuldades defensivas à Inglaterra e esteve na base dos 3 pontos iniciais para a NZ.



De fases estática, os jogadores neozelandeses também insistiram no jogo ao pé (são exemplos o cross kick mal executado para Cory Jane diretamente para fora aos 14:30m e para as costas de Tuilagi que dá origem a uma penalidade aos postes (falhada) para a NZ aos 16:25m). Refira-se que durante todo o jogo a NZ chutou 27 vezes em jogo corrido.

Saltando para os 25 minutos da 2.ª parte de domínio total da NZ (do minuto 42 ao minuto 67), numa clara mudança de atitude e concentração desta equipa. Período esse que abrangeu também a saída de Cruden (com pouca capacidade para liderar e implementar o jogo ofensivo dinâmico a que a NZ nos tem habituado) por  Barrett e a expulsão por 10 minutos de Owen Farrell.

Primeiro uma lição de contra-ataque no ensaio de Ben Smith (ver sequência abaixo). Recuperação de bola de Retallick (tal como na origem do ensaio da semana passada) e de um segundo para o outro a NZ converte uma linha defensiva em duas linhas de ataque, com Ben Smith a assumir a posição de playmaker e Whitelock e Coles de centros. Passando por estes três jogadores, a bola rapidamente chega a Cruden que imprime velocidade ao ataque (fundamental para tirar partido da vantagem numérica), fura a linha defensiva inglesa e com apoio de Savea fora e Ben Smith dentro resolvem a situação facilmente com duas situações de 2x1.









O segundo ensaio começa com dois lances de genialidade técnica neozelandesa. Primeiro, Ben Smith sobe ao último andar para ganhar de forma segura uma bola complicada no ar. Depois, Aaron Smith sai com a bola do ruck e num side step diabólico tira Dave Wilson do caminho (que, para não ser batido no exterior em velocidade, “oferece” o seu lado interior – o do ruck que fica desguarnecido - a Smith) e fez mais de 40 metros até ser apanhado. Depois de algumas fases (penetrações sempre longe da zona do breakdown anterior) em que o perfurador nunca foi o primeiro receptor (com um pick and go pelo meio) e de mudança do sentido do jogo, a bola acaba na ponta de Savea para uma finalização fácil. Importa salientar a simplicidade neste ensaio, utilizando apenas uma linha ofensiva, com permanente ataque do espaço em velocidade, capacidade técnica evoluída do pilar ao 15 e um apoio ao portador da bola que permitiu garantir a posse de bola (curiosamente os offloads só surgem na parte final da jogada).





O terceiro ensaio da NZ resulta dos básicos executados na perfeição e velocidade e de uma “grande” ajuda de uma derrotada defesa inglesa.




Estatística:
  • 567 metros ganhos
  • 11 clean breaks
  • 3 rucks perdidos
Defesa

Na defesa, a NZ mostrou problemas nos momentos iniciais em defender o maul inglês, tendo feito 3 faltas (uma de derrube de maul e duas entradas no maul pelo lado) em apenas 3:25 minutos de jogo.

Defesa de up and out clássica com tentativa de defesa de 2 em 1, procurando o segundo homem parar rapidamente o ataque inglês, evitar o offload ou a reciclagem rápida da bola e tentando, durante o processo, a recuperação da mesma. Refira-se que a NZ manteve muitas dificuldades, essencialmente durante a primeira parte e no final do jogo, em suster a fisicalidade inglesa na zona do 1.º e 2.º canal.

Falha de placagem de McCaw e Cruden muito aberto no primeiro ensaio inglês. No segundo ensaio lenta a recolocação e falha de atenção defensiva no ensaio de Mike Brown. No último...pura displicência quando o jogo já se encontrava resolvido.

Estatística:
  • 74 placagens realizadas
  • 11 placagens falhadas
  • 7 turnovers ganhos
  • 20 turnovers concedidos
Fases estáticas

Nas fases estáticas a NZ revelou algumas melhorias, com mais estabilidade na mêllèe, apesar de ter perdido 2 mêllèes próprias (10 mêllèes de introdução própria conquistadas) e ganho as suas 10 touques.

Faltas: 9

Inglaterra

Ataque

A Inglaterra entrou outra vez com carácter, apostando no maul como principal arma atacante, ganhando três penalidades nos primeiros 3:25 minutos de jogo.





O maul serviu também como base para vários ataques de primeira fase no 1.º e 2.º canal ao longo do jogo. A jogada usada recorrentemente inicia-se com a saída de Danny Care da base do maul em corrida lateral, tendo como opções o ponta fechado no interior (ou exterior curto como no primeiro ensaio), o abertura com uma corrida lateral (quase como se tivesse a fazer uma dobra aos centros) e os centros a cruzarem entre eles. Danny Care funciona como manobrador, aparecendo o ponta fechado e o 13 num primeiro plano ofensivo (perfurante) e o 10 e o 12 num segundo plano ofensivo para jogar no espaço (juntamente com o 15 e ponta aberto, estes então já numa 3.ª linha de ataque bem mais profunda).  





Esta jogada dá o primeiro ensaio inglês aos 7 minutos, graças a uma placagem (invulgarmente) falhada por McCaw e também ao facto de haver um grande buraco entre este e Cruden. Do lado inglês mérito não só para a linha de corrida e potência de Yarde no ataque do espaço, mas também à forma como Care ataca a linha criando indecisão em McCaw que só se apercebe da presença de Yarde na altura do passe para este. Burrell com uma linha de corrida para cima de Cruden obriga este a manter-se fora.


Outra variante da jogada acima confirma a tendência da equipa inglesa em (i) querer incluir o maior número de homens extra no ataque de primeira fase possível (com o formação a sair com a bola para fixar os primeiros homens da linha defensiva e o ponta fechado a aparecer em quase todas as jogadas), (ii) ter pelo menos 3 opções de passe; (iii) haver diferentes linhas de corrida (para o espaço) dos jogadores que dão essas opções; e (iv) ter quase sempre dois planos (por vezes três) ofensivos de ataque (o primeiro perfurante e o segundo para jogar no espaço, sendo, no entanto, os jogadores no segundo plano utilizados amiúde em perfuração nos espaços abertos pelos jogadores da primeira linha ofensiva – ver exemplo abaixo de Yarde).







No jogo aberto a Inglaterra consegue progredir num jogo estruturado e apoiado nos canais 1 e 2, mas parece uma vez mais menos ineficaz no ataque no canal exterior, demonstrando muita lentidão na forma como os jogadores atacam (e não fixam) a defesa neozelandesa (ver imagens abaixo). 




Embora esta tendência tenha melhorado substancialmente face ao primeiro jogo em Auckland e já com alguns movimentos assinaláveis (como na jogada do ensaio de Mike Brown ou na perfuração de Twelvetrees - ver imagens abaixo). Na jogada de Twelvetrees é interessante ver também como os decoys ingleses no primeiro plano ofensivo (e Tom Wood completamente fora de jogo) atrapalham a linha defensiva de Nonu e permitem a perfuração de Twelvetrees. Obstrução?




De realçar ainda a tentativa recorrente de Care em inverter o jogo, tentando surpreender a NZ aproveitando situações de superioridade numérica ou em que tinha jogadores mais rápidos e potentes em relação à defesa no lado fechado para progredir no terreno.

Depois dos 25 minutos de domínio total da NZ na 2.ª parte, a Inglaterra levanta-se “dos mortos” e com um resultado de 28-13 ainda marca dois ensaios.

O primeiro de jogo corrido, a Inglaterra aproveita uma situação de superioridade numérica (1 homem a mais) para marcar um ensaio num ataque com 2 planos ofensivos executado na perfeição. A linha da frente a fixar os três primeiros defensores ingleses. O receptor na segunda linha de ataque põe a bola rapidamente no espaço, criando uma situação de 3 atacantes contra 1+1 defesas. Mike Brown aparece em velocidade e recebe a bola, atacando o espaço interior do defesa que sobrou e só acabou dentro da área de ensaio (toque de meta ou não? Os árbitros dizem que sim).


O último ensaio surge já depois do minuto 80 e com 8 pontos de diferença. A vitória já não iria fugir da NZ (o que poderá justificar , mas não desculpar, a sua displicência defensiva e falhas de placagem), mas os ingleses foram persistentes, demonstrando atitude e carácter.

Estatística:
  •        358 metros ganhos
  •        7 clean breaks
  •        6 rucks perdidos
  •        26 pontapés em jogo corrido
Defesa

A Inglaterra, à semelhança do primeiro jogo, começou muito pressionante, tirando espaço à NZ para atacar e obrigando-a a cometer vários erros ofensivos. Como a NZ, a Inglaterra tentou ter um segundo homem na placagem para evitar o offload ou a reciclagem rápida da bola (para quebrar o ritmo de jogo neozelandês) e tentando, durante o processo, a recuperação da mesma.

Também na sequência do primeiro jogo, a pressão no breakdown da NZ manteve-se intensa resultando em alguns dos 19 turnovers concedidos pela equipa da NZ.

Durante o domínio da NZ no início da 2.ª parte a defesa inglesa foi claramente batida, não só a nível coletivo (posicionalmente foi um descalabro), mas essencialmente a nível individual a falha de placagem foi em alguns casos inadmissível (e.g. ensaio de Nonu). A equipa inglesa não conseguiu a coesão de outros períodos do jogo, abrindo espaços, falhando placagens e tornando-se incapaz de disputar rucks e recuperar bolas.

Durante esse período a equipa inglesa perdeu-se física e psicologicamente e quando toda a gente pensou que até ao final o jogo só teria um sentido, a Inglaterra ressuscitou com a reentrada de Farrell, com a renovada primeira linha, mas essencialmente com a clarividência de Ben Youngs (Care já não estava há muito em campo) e as entradas de Courtney Lawes e Billy Vunipola  (deveriam ter entrado mais cedo?).
  
Estatística:
  • 136 placagens realizadas
  • 31 placagens falhadas
  • 10 turnovers ganhos
  • 19 turnovers concedidos


Fases estáticas

Fases estáticas relativamente estáveis (principalmente a mêllèe), mas não tão infalíveis como no primeiro jogo em que a eficácia de conquista de mêllèes e touches de introdução própria foi de 100%, com recuperação ainda de algumas bolas de introdução neozelandesa. Inglaterra perdeu 3 e ganhou 12 touches próprias e  conquistou as suas 4 mêllèes.

Faltas: 7

Momento do jogo

O assalto à segunda parte pela NZ, mostrando velocidade de execução, domínio dos básicos e, acima de tudo, com uma eficácia mortífera.

Jogadores

Pela positiva...

Dan Coles – jogo impressionante de sacrifício e presença em todo o campo, está no ensaio de Ben Smith, está numa placagem na linha extraordinária aos 47m impedindo um ataque perigoso inglês e perfeição na introdução das touches (100% de eficácia).
Ben Smith – placagem que salvou ensaio no final da primeira parte com recuperação da bola, segurança nas bolas do ar e grande intervenção e dinâmica ofensiva ao longo de todo o jogo, finalizando um ensaio (brilhante a sua linha no apoio) que começou. Poderia, porém, ter soltado mais cedo a bola em várias situações.

Geoff Parling – um trabalhador para a equipa com 18 placagens feitas (mais do que qualquer jogador dentro de campo) e um turnover ganho.
Mike Brown – a arrancada de Tuilagi poderia ter tido outro desfecho se Brown se tivesse aproximado no apoio, mas pela segurança defensiva e no jogo aéreo, capacidade de aparecer na linha e causar desequilíbrios e intervenção nos dois últimos ensaios, merece ser o ¾ de eleição na equipa inglesa.

...pela negativa

Cory Jane – melhorou no período bom da NZ na segunda parte, até lá foram erros individuais atrás de erros individuais.
Billy Twelvetrees – com exceção de um line break na primeira parte, 3 placagens falhadas e 3 turnovers concedidos são números excessivamente negativos numa defesa inglesa que teria de ser imaculada (principalmente na zona de Twelvetrees) para aspirar a ganhar a esta equipa da NZ.

O terceiro test match

Com as test series decididas, estará acima de tudo em jogo o orgulho das duas equipas.

A NZ não estará satisfeita com as suas prestações nestes dois jogos, com efeito, a equipa foi vulgarizada (com exceção de 25 minutos deste segundo jogo) por uma equipa inglesa com qualidade e ritmo de jogo. A imagem que tem deixado não tem convencido o mundo do rugby e neste momento mostra-se vulnerável. A dois meses do Rugby Championship e a pouco mais de uma ano do mundial a NZ – ferida no orgulho - quererá recuperar rapidamente o estatuto e nível a que habituou os adeptos do rugby. A NZ não costuma mudar o XV radicalmente, pelo que se esperam algumas alterações, mas sem que tenham, à partida, um impacto negativo na sua forma de jogar.

A Inglaterra disputa esta 3.ªf um jogo contra uma equipa forte dos Crusaders em que as únicas ausências são os seus All Blacks. Espera-se que seja uma segunda equipa a jogar este jogo e no próximo sábado contra a NZ deverá alinha uma equipa não muito diferente da que iniciou o segundo test match. Fará talvez sentido a entrada de Billy Vunipola e de Courtney Lawes (embora Parling e Launchbury estejam em grande forma) e eventualmente uma mudança nos centros.

Previsão: vitória da NZ

Fonte de dados estatísticos: NZ Herald